Insistência nos jogadores errados

José Paulo Kupfer

26 de julho de 2010 | 18h35

O menor saldo comercial em oito anos e o maior déficit em contas correntes no primeiro semestre desde que a série é calculada e isso já tem mais de 60 anos. Recordes históricos negativos também nas viagens internacionais, com déficit de quase US$ 8 bilhões em 12 meses – e olha que os números nem pegam julho, mês de férias. Projeções indicando maior volume de remessas de lucros e dividendos do que ingresso de investimento estrangeiro direto em 2010. Chega ou querem mais?

Enquanto as contas externas avançam numa trajetória de deterioração cada vez mais acentuada, o debate sobre as causas do problema mantém-se num espantoso imobilismo. Acusa-se ou defende-se a taxa de câmbio com ardor dos remadores que, no meio do rio caudaloso, tentam em vão evitar que o barco despenque na corredeira. Mas, se o nó passa por aí, não basta mover (ou não) o câmbio para desatá-lo.

Não adiantar negar o impacto do câmbio valorizado nessa história preocupante. A conversa de que as críticas aos níveis da taxa de câmbio não fazem sentido porque as exportações vão bem, crescendo acima de 25% sobre o ano passado, é uma contorção da realidade. Como aqueles tipos que desfilam pelas calçadas escuras das avenidas nas madrugadas, não é o que parece.

Cada vez mais, as receitas de exportação dependem das vendas externas de commodities, itens menos dependentes do nível da taxa de câmbio. As vendas externas de manufaturados, esta sim realmente muito mais afetadas pelo câmbio, despencam.

A evolução da relação entre exportações e importações de bens industriais, dá uma indicação bem nítida do problema e da rapidez com que ele se aprofunda. Em 2005, o valor das exportações industriais (exceto setor de petróleo) era dois terços maior do que o valor das importações industriais. Dois anos depois, a relação caiu para pouco mais de um terço. E, em 2010, o valor das exportações e das importações industriais já se equivale. No caso dos bens industriais com maior densidade tecnológica, entre os quais os bens de capital, o valor das exportações, atualmente, não passa de 40% do valor das importações de segmento específico.

O economista David Kupfer, coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIE), do Instituto de Economia da UFRJ, autor dos cálculos acima, resumiu, semana passada, em sua coluna do jornal Valor:

“Não há como não concluir que esse quadro revela um processo sistêmico de perda de competitividade da indústria brasileira, reflexo do fato de que as exportações crescem a um ritmo menor do que a produção, sugerindo dificuldade crescente para exportar, enquanto o contrário se dá com as importações.”

Claro que só a valorização cambial não explica tudo. Há um problema sistêmico de competitividade na economia brasileira – que o câmbio valorizado agrava – cujos impactos negativos nas contas externas tendem a se aprofundar.

Carga tributária, burocracia, logística, qualificação de mão-de-obra, baixa absorção tecnológica, pouca inovação, linhas de financiamento insuficientes ou inadequadas e uma longa fieira de eteceteras, que engordam além do aceitável os custos de transação, permanecem à espera de solução.

Com custos de produção e transação mais elevados do que os praticados pela concorrência internacional, a começar pelos impostos por uma taxa de câmbio excessivamente valorizada, restará ao País aprofundar o atual padrão de especialização comercial – exportador de commodities e importador de bens elaborados.

A notícia preocupante é que tal padrão, além de não ser sustentável, deixando a economia à mercê do vaivém do comércio internacional, enfraquece a musculatura tecnológica e inovativa da produção doméstica. Como lembrou David Kupfer em seu texto no Valor, “faz lembrar um certo treinador da Seleção brasileira que, às custas de alguns bons resultados parciais, insistiu em competir com os jogadores errados.”

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