Instrumentos para formar expectativas são poucos e lentos

José Paulo Kupfer

30 de julho de 2010 | 12h25

Era irrealista esperar que a ata da reunião do Copom que, na semana passada, decidiu elevar os juros básicos em 0,5 ponto dissolvesse o mal-estar que a decisão ajudou a instalar no mercado. A ata se empenha em convencer que os indicadores da atividade econômica e da evolução dos preços entraram em fase de acomodação, num ambiente em que a situação externa permanece incerta. Mas parece não ter alcançado o objetivo: os relatórios privados, disparados logo após a divulgação da ata, em boa maioria, consideraram fracos os argumentos do Copom.

É possível que tenha faltado uma explicação para a reviravolta nas análises do próprio BC entre a divulgação do “Relatório de Inflação”, de junho, com indicações muito claras de que a economia encontrava-se aquecida, e a decisão do Copom, em julho, apoiada em números de uma acomodação. Pode ter faltado também uma oferta menos tímida de projeções para o futuro próximo. Essas ausências foram interpretadas e, de fato, revelam uma posição defensiva da parte do BC ante os efeitos produzidos pela decisão do Copom nas expectativas de mercado.

Se desta vez as reações foram mais fortes, não é a primeira, em tempos recentes, que BC e mercado divergem. Em março, pouco antes e depois da reunião em que o Copom manteve a taxa Selic vigente, numa decisão apertada, algo do tipo já havia ocorrido.

Uma minoria tem atribuído essas intercorrências a contaminações políticas. Mas muito mais provável é que o processo de coordenação de expectativas pelo BC, inerente ao sistema de metas de inflação, mais de dez anos depois de sua introdução, esteja merecendo passar por ajustes.

Além de menos transparente do que alguns de seus congêneres, o aparato brasileiro de coordenação de expectativas dispõe de poucos e lentos instrumentos para formar expectativas. Diante de um mundo econômico tão volátil, sobretudo depois da crise de 2008, o BC dispõe apenas de um relatório trimestral sobre a situação da economia e de uma ata a cada 45 dias, com as razões de sua decisão, para se desempenhar de tarefa tão complexa. Mundo afora os BCs têm quebrado a antiga regra de ouro. Falam, cada vez mais, além das atas.

(Publicado no Estado de S. Paulo, edição de sexta-feira, 30/07/2010)

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A conversa desta quinta-feira, na TV Estadão, com a colega Letícia Bragaglia, também foi sobre a ata do Copom.

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