Investimento versus produto potencial

José Paulo Kupfer

23 de março de 2010 | 11h39

Má notícia para os adoradores do “produto potencial”. A sondagem de investimento do Instituto Brasileiro de Economia (BRE), ligado à Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro (FGV-RJ), referente ao primeiro bimestre de 2010, apontou uma forte intenção da indústria em investir. 

A previsão do conjunto de planos e decisões aprovadas de investimento é de uma ampliação, na média, de 14,6% na capacidade instalada. Trata-se da maior expansão projetada em oito anos. Para o triênio 2010-2012, a ampliação projetada da capacidade instalada é de 23,8%.

Dos fatores que influenciaram os planos e decisões de investir, a demanda interna reina absoluta, com 80% das respostas. Seguem-se as perspectivas de lucro, com 75%, a demanda externa, importante para 46% dos consultados, e as condições de financiamento, com 35%.

O resultado da pesquisa é mais uma entre as quase infinitas comprovações empíricas de que o conceito de “produto potencial” – a taxa natural de crescimento que não acelera a inflação – envolve inúmeras fragilidades. Muito arriscado, portanto, fazer política monetária com ênfase no conceito.

Atuar para conter a atividade econômica porque, em dado momento, ela cresce acima do produto potencial é, no fim das contas, contribuir para abortar os planos e decisões de investimento.

Trata-se de um círculo vicioso. Segura-se a demanda para evitar que ela pressione o produto potencial e, com isso, segura-se o investimento, impedindo a ampliação do produto potencial.

Quando, em política econômica, o cachorro fica mordendo o próprio rabo, desperdiça-se energia para não sair do lugar.

* * *

Aqui está o link para o comunicado da FGV-RJ com as conclusões da sondagem de investimento do primeiro bimestre de 2010. 

http://portalibre.fgv.br/main.jsp?lumPageId=402880972283E1AA0122841CE9191DD3&lumItemId=8A7C823326CD8861012785AB0EE74469

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.