IPCA-15 avança, mas ambiente inflacionário é confortável

José Paulo Kupfer

23 Outubro 2018 | 17h50

Para quem se lembrava da variação do IPCA-15 em setembro, beirando a estabilidade sobre agosto, com uma alta mínima de 0,09%, o resultado de outubro poderia até assustar. O índice que mede a inflação ao consumidor no intervalo de meados de um mês a meados do seguinte, subiu, em outubro, 0,58%, bateu em  3,38% de alta no ano e superou o centro da meta de inflação, em 12 meses, alcançando 4,53%.

Na verdade, porém, esses números, quando desagregados e cotejados com indicadores mais detalhados, mostram um ambiente inflacionário contido e confortável, sem riscos de pressões generalizadas no horizonte de curto e mesmo médio prazos. Para começar, a elevação de preços apurada pelo IBGE ficou abaixo das projeções dos analistas, que previam alta de 0,64% . Além disso, a variação dos núcleos, na média, ainda que acima de 0,21% registrada em setembro, acomodou-se, neste mês, em 0,34%, praticamente repetindo a alta de 0,35% verificada em outubro de 2017, e ainda longe do centro da meta de inflação, de 4,5% em 2018.

A história da inflação medida pelo IPCA-15, em outubro, pode ser contada pela alta de preços em três itens: transportes, com ênfase em combustíveis, alimentação, puxada por consumo no domcílio, e cuidados pessoais, em que sobressaem os preços de planos de saúde. No geral, a elevação no conjunto de itens de serviços, de 0,22%, reforça a conclusão de que a alta taxa de desemprego e o avanço lento da economia atuam para mitigar pressões inflacionárias.

Ao mesmo tempo, na apuração do IPCA-15 de outubro, o IBGE ainda não captou o recuo mais recente das cotações do dólar, que influenciaram na determinação dos preços dos combustíveis e de alimentos derivados de matérias-primas importadas, caso do trigo. Quanto à energia elétrica, a tendência é de redução no peso das tarifas sobre os índices de inflação. Com a manutenção da bandeira vermelha 2, no intervalo de apuração do IPCA-15, as tarifas recuaram.

Para o IPCA cheio de outubro, os analistas projetam alta de entre 0,55% e 0,60%, levando o índice a uma variação de 4,66% a 4,7%. O item alimentos pode apresentar alta mais forte, mas com a perspectiva de aplicação da bandeira vermelha 1 já em novembro e de amarela em dezembro, as previsões para a variação do IPCA nos dois últimos meses de 2018 não indicam problemas. Está prevista pequena alta de 0,1%, no próximo mês, e de 0,3%, em dezembro. Se confirmadas essas projeções, a inflação terminará o ano com variação bem próxima do centro da meta.

No que interessa ao mercado financeiro, isso significa que o Banco Central não teria de mexer nos juros tão cedo. Deverá, no cálculo dos analistas, manter a taxa básica em 6,5% ao ano nas duas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) marcadas ainda para este ano e levar a trajetória da Selic inalterada até pelo menos meados do ano que vem. Há consenso de que, para chegar ao fim 2019 com a inflação no centro da meta, de 4,25%, a taxa básica terá de subir para 8% até a chegada de 2020.