IPCA de agosto não veio com cara muito boa

José Paulo Kupfer

09 Setembro 2016 | 12h28

Como esperado pelos analistas, a inflação em agosto, medida pela variação do IPCA, recuou no mês, fechando em 0,44% sobre julho, mas acelerou no acumulado em 12 meses, avançando de 8,74% para 8,97%. Pressões pontuais, como a das tarifas dos hotéis, embaladas por altas fortes no Rio de Janeiro, em razão das Olimpíadas, ajudaram a impedir uma redução maior do índice mensal, a partir do recuo na alta de preços dos alimentos. Elas por elas, a inflação continua seu caminho de queda, mas confirma que o ritmo é mais lento do que o desejado.

No ano passado, a partir de setembro, a alta de preços no IPCA se acelerou, o que não deve se repetir em 2016, até porque deve ocorrer uma acomodação mais acentuada em itens sensíveis no momento, caso dos alimentos. Assim, a tendência é de queda nos índices em 12 meses até o fim do ano e, tanto quanto se pode prever em prazo mais longo, ao longo de 2017. Em resumo, se não houver acidentes no percurso, o recuo da inflação ganhará consistência a partir de agora, fechando 2016 com alta em torno de 7,5% e chegando na fronteira do centro da meta, de 4,5%, no fim de 2017.

No prazo mais curto, porém, os números do IPCA de agosto e as projeções atualizadas para setembro e o resto do ano mostram resistências. Os núcleos de inflação, por exemplo, subiram em agosto e o mesmo ocorreu com o índice de difusão. Embora não haja impedimentos maiores para reversão dessa trajetória, evidencia-se um desconforto em relação à segurança de um início do ciclo esperado de cortes nas taxas básicas de juros, já na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em meados de outubro.

É certo que os diretores do Banco Central, reunidos no Copom, estão ansiosos para começar a reduzir os juros básicos. As notas da reunião de agosto (novo nome da antiga “ata do Copom”), publicadas na semana passada, deixam claro esse desejo. Por isso, com base no conteúdo divulgado, a maioria dos analistas entendeu que o movimento começaria já no encontro de outubro. Depois do resultado do IPCA de agosto, porém, que veio com uma cara não muito boa, como notaram alguns observadores mais experientes, essa convicção pode ter ficado um tanto abalada.