IPCA de Setembro: alta cambial começa a ficar nítida na marcha da inflação

José Paulo Kupfer

05 Outubro 2018 | 16h27

A inflação de setembro, medida pela IPCA, surpreendeu a quem quis ser surpreendido. Embora a economia esteja vivendo em ritmo de quase recessão, o que mitiga efeitos inflacionárias, a permanência por um período já bastante longo das cotações do dólar em níveis elevados era um encontro marcado com pressões sobre grupos de preços relevantes.

Com alta de 0,48% em relação a agosto, a inflação ficou no limite superior das projeções dos analistas e avançou para 4,53% no acumulado em 12 meses, ligeiramente acima do centro da meta, fixado para 2018 em 4,5%. A inflação permanecia abaixo do centro da meta desde março de 2017.

Projeções para outubro sinalizam variação acima da observada em setembro, com o IPCA variando no mês em torno de 0,5% e passando de 4,6% em 12 meses. Para o ano de 2018, as previsões convergem agora para uma alta no entorno do centro da meta.

Desde a divulgação do IPCA-15 de agosto, que apontava para um índice cheio no mês em estabilidade, como de fato se verificou — a alta no mês ficou em 0,09% —, as desvalorizações do real ante dólar, na faixa de 20% ao longo de 2018, já prenunciavam o quadro inflacionário que agora aparece mais nítido e que deve permanecer até o fim do ano. A análise então publicada no blog captava a tendência (ver aqui).

A marca da virada inflacionária de setembro tem nome incontestável. Chama-se combustíveis. Um tanto pela alta do petróleo no mercado internacional, outro tanto pela política de preços da Petrobrás e o restante pelo efeito da variação cambial, a gasolina subiu 3,94% no mês e o diesel, 6,91%. No etanol, cujo preço é de certa forma “indexado” ao da gasolina, a elevação foi de 5,42%. A alta de preços dos três itens explica metade da variação mensal total do IPCA.

Além do peso direto dos combustíveis na inflação do mês, as passagens aéreas, também fortemente influenciadas por combustíveis, contribuíram, destacadamente, para o resultado final. Depois de um recuo de 26,12% em agosto, as passagens aéreas registraram um repique de 16,81% em setembro.

Embora tenha mudado de patamar, a trajetória da inflação ainda é benigna, como mostram as médias dos núcleos. Por isso, as apostas em altas da taxa básica de juros (taxa Selic) na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no último dia de outubro, estão aumentando, mas ainda não são majoritárias. Mas há consenso de que um novo ciclo de elevação da Selic, chegando a 8% em fins de 2019, já está contratado.