Juros básicos estacionam, mas dólar pode movimentá-los

José Paulo Kupfer

06 de agosto de 2015 | 21h56

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta quinta-feira, deixou seus intérpretes no mercado financeiro cheios de cuidados. Eles notaram que junto à volta da referência aos “efeitos cumulativos e defasados da ação da política monetária”, descartada nos últimos comunicados e atas, ficou pendurada a lembrança de que deve se “manter vigilante em caso de desvios significativos das projeções de inflação em relação à meta.”

Traduzido do “coponês” praticado pelo Copom, a primeira referência significa dizer que o comitê pretende esperar pelo desenrolar dos fatos para avaliar seus impactos sobre os índices de inflação. Mas, ao destacar que se mantém vigilante, deixa aberta a porta para intervir na taxa básica de juros a qualquer momento. Tudo considerado, a conclusão, bastante generalizada, é de que o atual e já longo ciclo de alta dos juros chegou ao fim, ainda que sobrevivam incertezas e riscos, sobretudo com relação à trajetória da cotação do dólar, suficientes para, se for o caso, alterar a decisão de só voltar a mexer nos juros — e para baixo — em 2016.

Não há, na ata, menção às instabilidades e incertezas políticas que, a esta altura, estão na base da trajetória de alta da cotação do dólar e das perturbações na economia. O texto, de todo modo, menciona preocupação com o efeito das variações cambiais sobre a alta de preços, bem como da possível contaminação de indicadores que afetam a inflação, em razão da piora da situação fiscal. “Alterações significativas na trajetória de geração de superavit primários impactam as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação e podem contribuir para criar uma percepção menos positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazo”, registra a ata.

O pano de fundo da contração na atividade econômica, que se apresenta mais intensa do que o anteriormente previsto, mostra efeitos tanto na demanda de consumo quanto na concessão de crédito e indica que a expansão da economia será inferior ao seu potencial, em resumo, dá força à hipótese de estacionamento da taxa básica por tempo razoável nos 14,25% ao ano a que chegou no Copom de julho.

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