Juros básicos imóveis acirram debate sobre cautela “excessiva” do BC

José Paulo Kupfer

06 de fevereiro de 2019 | 19h38

Era amplamente esperada a manutenção da taxa básica de juros em 6,5% nominais ao ano, decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) no início da noite desta quarta-feira. A taxa básica (taxa Selic) permanece inalterada desde abril de 2018 e, no momento, a mediana das apostas dos analistas de mercado, compiladas pelo Boletim Focus, que reúne as projeções de uma centena deles para indicadores macroeconômicos, é de que siga nesse mesmo nível pelo menos até o fim do ano.

Embora amplamente esperada, a decisão unânime dos diretores do Banco Central deve acirrar o debate sobre o acerto de manter a taxa Selic no nível em que se encontra. A lentidão da retomada da atividade econômica, com pouco avanço na utilização da capacidade instalada e permanência da taxa de desemprego em dois dígitos, está na base das críticas à “excessiva” cautela do Banco Central no manejo da política monetária. De acordo com esses críticos, já estaria na hora de pelo menos acenar com futuros cortes na taxa Selic.

Chama a atenção dos economistas incomodados com a estratégia cautelosa do BC o fato de que a média dos núcleos de inflação — aquelas medidas que desprezam eventos mais volatéis na formação das altas de preços — se encontrem há bastante tempo abaixo do piso do intervalo de tolerância do sistema de metas de inflação. Os núcleos mais aderentes ao ciclo econômico, que o Copom, no comunicado da reunião desta quarta-feira, classifica como “apropriados” ou “confortáveis”, encontram-se em níveis inferiores a 3%, no acumulado em 12 meses, portanto na altura do piso do intervalo de tolerância.

Observa-se, entre analistas, crescente discordância em relação à conclusão, reiterada pelo Copom em seus comunicados, de que a taxa básica de 6,5% representa um fator estimulativo da atividade econômica. Há estimativas de que a taxa de juro neutra — ou seja, aquela que contribui para o maior crescimento da economia sem estimular a inflação — esteja abaixo de 6,5%, mas esta é uma medida não observável e, portanto, sujeita a polêmicas. O fato é que a economia não deslancha, o que joga lenha no fogo que os críticos da atual cautela do BC estão alimentando.