Juros sobem, rentistas fazem a festa

José Paulo Kupfer

18 de abril de 2008 | 19h01

Por Vladimir Martins Coutinho*

O COPOM elevou os juros em 0,5 ponto, com isso a SELIC vai para 11,75%. Dessa forma, no Brasil a taxa de juro real, a SELIC menos a expectativa de inflação, vai para 7%, ficando cada vez mais longe do segundo lugar no rank dos juros altos, a Turquia (5,6%) e do terceiro, a Austrália (4,6%). A taxa de juro real média mundial está em torno de 0,5%.

O FMI alertou na semana passada o risco de uma elevação nos juros no Brasil provocar uma deterioração ainda maior nas contas externas. O ganho nas operações de arbitragem está muito elevado; isso é transferência na veia dos recursos gerados no país para especuladores que trazem dólares para ganhar com nossos juros estratosféricos e com a valorização do Real. Esse tipo de recurso não trás nenhum ganho ao país. Tanto é que até o Banco Mundial, celeiro de neoliberais, sugeriu que o Brasil limitasse as entradas de capitais de curto prazo para conter a valorização do Real.

Em qualquer manual ortodoxo de economia aprendemos que num país onde a conta de capitais é aberta, isto é, estrangeiros podem entrar e sair com recursos livremente, a autoridade monetária não tem autonomia para definir uma taxa de juros diferente da taxa praticada no resto do mundo. Assim, a nossa taxa deveria ser muito maior do que a taxa básica norte-americana acrescentada do risco país (na casa dos 230 pontos – 2,3%).

Além disso, num cenário de desaceleração mundial é muito temerário subir-se os juros e esfriar a atividade econômica. Não pressão excessiva da demanda interna, o que vemos são fortes investimentos na expansão da capacidade produtiva e elevações pontuais em algumas commodities no mercado internacional. Qual taxa de juros no Brasil seria capaz de compensar uma alta mundial nos alimentos? Será que o país está tão bem assim para sacrificar o crescimento para acertar a meta de inflação no alvo com quatro casas decimais? O BACEN resolveu aumentar os juros porque sua expectativa de inflação subiu para 4,6%!!! Lembremos que a meta estabelecida é de 4,5% podendo variar 2 pontos para cima ou para baixo.

A economia não é uma ciência exata como a física. Esse preciosismo do Banco Central custa caro à sociedade.

O mundo inteiro fica perplexo com o nível de juros no Brasil, aqui parece estar tudo bem. Nas rodas de bate papo se ouve dizer que os juros estão baixos. Não faltam recursos para investimentos, para a saúde, para as escolas, para a segurança pública…

Estima-se que os gastos com juros aumentarão nos próximos dois anos em cerca de R$10 bi se as “previsões” do mercado forem atendidas pelo BC. O Bolsa Família tem um orçamento de R$ 10,37 bilhões para atender a 11 milhões de famílias em 2008. O PAC prevê gastos fiscais em investimentos no valor de R$14,6 bi. No acumulado em 12 meses até fevereiro foram gastos cerca de R$165 bi em juros (por volta de 6% do PIB!!!).

Precisamos de um Banco Central independente. Independente do mercado financeiro e a serviço do país!

(*) Vladimir M Coutinho
www.vlad.blog.br
Engenheiro Químico, assessor da Diretoria de Crédito do Banco do Brasil e estudante de economia na Unicamp.

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