Limite físico

José Paulo Kupfer

11 de fevereiro de 2014 | 11h06

Como as tradicionais, as fontes alternativas de energia que se apresentam, mesmo as renováveis, não são ilimitadas. Seus limites derivam da finitude das reservas de matéria-prima, dos custos de produção e dos riscos ambientais.

Essas limitações afetam, por exemplo, os sonhos de dispor sem restrições de energia limpa e infinita de base solar ou eólica. Ainda que passem a desempenhar papel até relevante nas matrizes energéticas, não surgiu ainda aquela de uso irrestrito e sem limites.

Nesse contexto, a experiência relativamente recente com o chamado “gás de xisto” (shale gas) — designação inapropriada, segundo os especialistas, para o óleo e o gás extraídos pela fratura das rochas que os armazenam a grande profundidade —, principalmente nos Estados Unidos, dá margem tanto a entusiasmo quanto à cautela.

As perfurações para a exploração desse gás, obtido a custo baixo — US$ 5 por milhão de BTUs, o equivalente a um barril de petróleo a US$ 30 — no mercado americano, são antigas, de 50 anos. A produção ganhou corpo a partir de 2005 e agora vive uma explosão de mercado. O “gás de xisto” já é uma realidade responsável por 40% do total do gás natural produzido nos Estados Unidos.

Mas nem por isso a cautela deve ser abandonada. Depois de um início fulgurante, a tendência é de acomodação gradual da produção. Tanto que daqui até 2030 o “gás de xisto” avançará apenas 10% no total da produção de gás, respondendo no pico por metade desse total e depois perdendo participação relativa.

“Enquanto um poço de gás convencional produz por 30 anos, o de shale gas não passa de cinco anos, com uma queda de produção entre 50% e 75% já no primeiro ano”, explica Ieda Gomes, especialista brasileira de renome internacional, ex-presidente da Comgás e da British Petroleum, no Brasil, diretora da consultoria Energix Strategy, na Inglaterra. “Analistas calculam que, para manter a produção atual, seria necessário perfurar 7 mil poços por ano, a um custo anual de US$ 42 bilhões”. Um limite físico evidente à expansão da produção.

O método de exploração do “gás de xisto” exige condições específicas. Nada que não possa ser devidamente controlado, mas que, como no caso da energia nuclear, não permite falar em eliminação completa de riscos, sobretudo ambientais. Estes dizem respeito principalmente ao perigo de contaminação dos aquíferos e à emissão de gás metano na atmosfera.

Cada perfuração de poço exige a disponibilidade e reciclagem de 20 milhões de litros de água. Além dosso, ocupa, com seus múltiplos sub-poços horizontais, pelo menos 10 mil metros quadrados e obriga de 100 a 200 viagens de caminhões com terra e entulho, o que pressupõe que o poço fique localizado longe de áreas urbanas.

Levantamentos de 2013, produzidos pela agência americana de informações de energia (EIA), localizaram 137 formações de “gás de xisto”, em 41 países, mas a produção ainda é incipiente fora do Estados Unidos. Com um quinto das reservas chinesas, as maiores do mundo, um quarto das argentinas e um terço das americanas, o Brasil ocupa o décimo lugar no rol dos detentores das maiores reservas levantadas. Mas daí a se lançar na exploração econômica desse gás vai uma distância.

Antes mesmo de abrir frentes na exploração de “gás de xisto”, como tentou a Agência Nacional de Petróleo (ANP), sem muito sucesso, na rodada de licitações de novembro passado, o País precisaria estabelecer uma política digna do nome para o gás natural. “Além de infraestrutura, tecnologia e informações técnicas, faltam incentivos para a produção em áreas mais difíceis, definições adequadas de conteúdo nacional, abertura da operação de gasodutos de transferência e maior preocupação com a criação de âncoras de consumo”, enumera Ieda Gomes.

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