Limites para crescer

José Paulo Kupfer

21 de novembro de 2011 | 18h13

Reportagem dos colegas Márcia De Chiara e Marcelo Rehder, publicada na edição desta segunda-feira, no caderno de Economia do vizinho Estadão impresso, traz a confirmação, com números e exemplos, de uma má notícia da qual já se tinha algumas indicações: a taxa de investimento, na economia brasileira, ficará, em 2010, abaixo dos já insuficientes 18,4% de 2010.

Taxa de investimento abaixo do equivalente a 22% ou 24% ao ano, para a economia brasileira, significa que crescer acima de 4% ou 4,5% ao ano é o mesmo que ligar um detonador de fricções nos mercados de fatores de produção e, em consequência, de potenciais pressões inflacionárias. Trata-se da instalação de uma sina: se a economia crescer rápido, é bom esperar pela derrapagem.

Há pouco menos de um mês, na minha coluna do Estadão impresso, que levou o título de “Caminho pedregoso”, em texto reproduzido aqui no blog, eu chamava a atenção para esse problema. Destacava não só a teimosa resistência do investimento ao crescimento, mas também o fato de que, se a taxa não avançou nos últimos anos, quando o custo de investir era relativamente baixo, agora, quando esses custos tendem a aumentar – e as perspectivas de expansão da economia ganham um tom mais moderado – , é que a superação das deficiências de infraestrutura e de capacidade de produção ficará ainda mais difícil.

Nos últimos anos, a taxa de investimento se sustentou com a importação de máquinas e equipamentos, cujos preços foram beneficiados pela valorização do real. Agora, esse canal ficou menos franco, além do fato de o processo de ampliação, substituição e modernização de equipamentos, pela via da importação, já ter dado o que tinha de dar.

Nos diversos casos de desistência, adiamento ou redução de rimo do investimento, relatados na reportagem da Márcia e do Marcelo, verifica-se um certo padrão de procedimentos, que ajuda a entender o processo de decisão de investir. Uns adiaram a ampliação da oferta porque ficaram temores com as perspectivas de seus mercados. Outros porque carregavam dívidas em moeda estrangeira e a desvalorização do real encareceu os custos de carregamento. Um terceiro grupo encontrou dificuldades de captar recursos.

Todos, nos fim das contas, diante das incertezas globais e dos sinais de maiores dificuldades na concessão de financiamentos, preferiram dar um tempo e fazer caixa, para as eventuais dificuldades que podem vir pela frente. “O caixa agora é o rei”, afirma o diretor da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, na reportagem. Segundo ele, ninguém sabe aonde a crise vai parar e, na incerteza, quando o conservadorismo ganha corpo, a tendência é desviar recursos do investimento para um fundo de reserva de caixa.

 

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