Mais lenha na fogueira do terceiro mandato

José Paulo Kupfer

28 de abril de 2008 | 18h50

A pesquisa CNT-Sensus de abril, divulgada hoje, coloca mais lenha na fogueira do terceiro mandato presidencial em 2010. Menos do que pode parecer pelo índice de 50% de cidadãos que topam mais um casuísmo na política brasileira e mais pela lavada que Lula daria em qualquer adversário que, se a eleição fosse hoje, tivesse peito de se apresentar para competir com ele. Os índices recordes de aprovação do Presidente só reforçam o fogaréu.

É claro que a história do terceiro mandato tem sido fermentada pela oposição ao governo, que espera erguer uma barreira de contenção à hipótese, com base num eventual clamor em contrário da opinião pública. Eu também faria qualquer negócio para tirar Lula da frente de uma disputa direta nas próximas eleições presidenciais. O problema é que, até aqui, como mostra essa própria pesquisa de hoje, a rejeição ao terceiro mandato ainda não pegou.

Mas é claro também que há farinha nessa receita de bolo em que o fermento encontra terreno apropriado para aumentar o volume da massa. Para começar, estão aí os amigos e os correligionários de Lula. Não há um dia em que não apareça um propondo algum tipo de mudança constitucional, abrindo passagem para um terceiro mandato. Depois, há as ambigüidades do próprio Lula.

O Presidente se esgoela na rejeição do terceiro mandato, mas poucos parecem acreditar na sua sinceridade. Há razões para essa desconfiança e elas têm origem tanto nos atuais movimentos e declarações de Lula quanto na história da política brasileira.

A lista dos que já juraram, inclusive com declarações passadas em cartório, não concorrer nas próximas eleições e cumprir até o fim o mandato executivo para o qual foram eleitos – com base, justamente, na promessa de não deixar o cargo antes da hora -, não tem cor partidária nem ideológica. É um ônibus lotado em que se apertam políticos de todos os tipos.

Quanto ao presidente, ele vai e volta nas indicações de apoio a eventuais candidatos – o caso mais escancarado é o da ministra Dilma Rousseff. Com isso, Lula dá, a quem quiser se agarrar à possibilidade, a chance de achar que, no fundo, ele é o único candidato dele mesmo.

Essa percepção, que pode ser interessada ou não, também é alimentada pelo crescente descolamento de Lula da estrutura partidária e sua busca de uma relação, pessoal e direta, com o eleitorado. Na entrevista exclusiva que concedeu à jornalista Maria Lydia, no programa “Em Questão”, da Rede Gazeta de Televisão, exibida no domingo 23 de março, há um momento emblemático. É quando Lula, falando da sucessão de 2010, traça o quadro das eventuais candidaturas à presidência. “O PSDB tem pelo menos três candidatos”, afirma Lula, enumerando José Serra, Aécio Neves e Geraldo Alckmin. “Eu não tenho nenhum”. Perceberam? De um lado, partidos e seus candidatos. De outro, é ele, Lula, quem não tem candidato. Não é o PT ou a base aliada ou qualquer outra estrutura política institucional (veja aqui ). Se é ele com ele, então, ele mesmo, na hora H, não seria o candidato mais natural?

Apesar disso tudo, não há, rigorosamente falando, indicações suficientes para acreditar que Lula esteja dissimulando quando condena a adoção de um terceiro mandato para 2010. Ele pode estar sendo sincero mesmo, como se diz seguro disso o ex-todo poderoso ministro dos tempos da ditadura militar, Delfim Netto, hoje fã e consultor informal de Lula.

“Se fosse um intelectual, Lula poderia estar pensando num terceiro mandato”, disse Delfim no “Em Questão” que foi ao ar no domingo, do qual participei como um dos entrevistadores. “Mas Lula não é um intelectual e sabe que um terceiro mandato seria um erro”, completou Delfim com aquele meio sorriso irônico e cáustico com que se diverte espalhando maldades, como quem quer nos lembrar da reforma conduzida pelo então presidente Fernando Henrique, para introduzir a reeleição para cargos executivos no sistema político brasileiro.

Impossível negar que parte dos altos índices de aprovação de Lula – esses mesmos índices que turbinam o debate sobre o terceiro mandato – vem do carisma e das sacadas do Presidente. Idem com relação a um conjunto bem-sucedido de ações sociais. Mas o grosso da aprovação é resultado da evolução positiva da economia, também bafejada por um ciclo particularmente positivo na economia internacional.

Esse ciclo global dá sinais de reversão e a economia brasileira, por conta sobretudo de uma política monetária preconceituosamente ortodoxa e no mínimo arriscada, pode chegar mais perto de 2010 com uma cara menos risonha. O resumo da conversa é que as apostas num terceiro mandato, já em 2010, dependerão mesmo é de como a economia vai se comportar nos próximos dois anos.

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