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Mais uma multinacional brasileira. Até quando?

José Paulo Kupfer

19 de maio de 2009 | 11h22

A fusão da Sadia com a Perdigão, da qual resultará a gigante Brasil Foods, é uma curiosa história empresarial em que o comprador acabou comprado. A Perdigão, que vivia assediada pela Sadia, no fim das contas, levou a concorrente.
 
Não foi, na verdade, mérito da Perdigão. A Sadia é que, no meio do caminho, tropeçou nas próprias pernas. Atropelada por um desastre na sua gestão financeira, a super-empresa de alimentos foi uma das maiores vítimas brasileiras da aventura dos derivativos financeiros, que explodiram com a crise financeira global. Desastrosas operações financeiras, cuja base era uma aposta arriscadíssima em que o real não se desvalorizaria frente ao dólar, fizeram escoar pelo ralo o caixa e os lucros da empresa das famílias Fontana e Furlan.

A empresa que surge é a décima maior do mundo no setor de alimentos – um gigante com mais de 100 mil empregados, R$ 20 bilhões de faturamento, R$ 10 bilhões em exportações e…R$ 10 bilhões em dívidas. Seus principais acionistas são fundos de pensão de estatais. Previ e Petros detém cerca de um terço do capital da nova “multinacional” brasileira.

Consolidadas no mercado interno, Sadia e Perdigão poderão se valer de sinergias importantes no comércio internacional, para avançar no mercado mundial. Para o consumidor brasileiro, no entanto, a fusão espelha mais um passo na concentração de mercado. Líderes em diversos segmentos, Sadia e Perdigão, juntas, terão acima de 50% em todos os mercados em que operam. No caso de pratos prontos, congelados e margarinas, esta concentração passa de dois terços do mercado total.

Os órgãos de defesa da concorrência, se o histórico for obedecido, não criarão dificuldades para a fusão. Haverá uma enxurrada de argumentos em favor da concentração de mercado. Vão dizer que o consumidor sairá beneficiado porque, na escala em que a Brasil Foods vai operar, a tendência é a de redução de preços, sem restrição de linhas ou perda de qualidade na oferta de produtos. A conversa de que o consumidor é o rei, numa economia que tende à concentração de mercado, é uma conversa que depende da competência e do empenho dos órgãos de defesa da concorrência para não configurar um engodo.

Outra conversa que pode esconder um engodo é a da necessidade de estimular a formação de grandes multinacionais brasileiras, protagonistas do comércio internacional. Uma outra enxurrada de argumentos será despejada para defender a concentração de mercado como etapa inevitável dessa internacionalização de empresas locais.

Aqui também não custa tomar cuidado com o lero-lero. Quanto se fala de multinacionais de economias periféricas, suportadas, basicamente, por capitais locais, todo o cuidado é pouco. O caso da Ambev, antes de ser exceção, é a regra. Usada como gazua para facilitar a aprovação da fusão entre Brahma e Antarctica, a conversa da multinacional brasileira durou enquanto foi útil para a aprovação da fusão das gigantes brasileiras do setor de bebidas. 

Hoje, a belga Inbev, fusão da brasileira Ambev com a belga Interbrew, está na vida e no mundo, dominando mercados globais. No Brasil, para enfrentá-las, só mesmo as empresas que operam em nichos, por natureza pequenas, ou algumas maiores, especializadas não só em bebidas, mas também em “planejamento tributário” – se é que me entendem.

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