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Meirelles: vítima do próprio veneno

José Paulo Kupfer

19 de agosto de 2009 | 11h32

A luta dos, digamos assim, investidores contra a tendência de mais reduções nas taxas básicas de juros está deixando as sombras dos bastidores e ganhando a luz do dia. É um sinal que projeta uma liça renhida nos próximos tempos.  E a recente ofensiva contra as pretensões eleitorais do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, só reforça a tendência.

Não deixa de ser curioso que, no caso, o feitiço se vire contra o feiticeiro.  Faz algum tempo que as taxas futuras de juros resistem às intervenções do BC e teimam em permanecer acima do que poderiam sancionar as expectativas futuras de inflação.  Visto não existir razão “técnica” para a alta “fora da curva”, o próprio Meirelles ajudou a difundir a “teoria” de que as taxas futuras estavam embutindo um “risco eleitoral”.

O mercado financeiro é péssimo analista político (também há controvérsias sobre sua capacidade de análise econômica), mas é imbatível no quesito “ganhar dinheiro” e, de preferência, fácil. A idéia de risco eleitoral é, nesse sentido, sopa no mel. Imaginem o quanto não se ganhou de dinheiro fácil, obviamente às custas dos crentes de última hora, com a explosão da cotação do dólar, nas vésperas da primeira eleição de Lula, no segundo semestre de 2002. Foi um show do “cupom eleitoral”.

Agora, o “risco eleitoral”, que ronda as pré-candidaturas “antimercado” de José Serra e Dilma Rousseff (fico pensando no “risco” de Ciro ou Marina Silva), alcançou também o próprio Meirelles. “Lançado” ao governo de Goiás por Lula, o presidente do BC, na visão do mercado financeiro, tornou-se, ele mesmo, fator de instabilidade para a política monetária. “Se o presidente do BC toma a decisão de ser um político, ele perdeu a qualificação de independência política e é incompatível ter um político na presidência do Banco Central”, resumiu o economista Affonso Celso Pastore, um dos mais respeitados porta-vozes “técnicos” do mercado financeiro.

Conversa. Seria cômico se não fosse ridículo tentar esquecer que, desde o primeiro minuto à frente do BC, Meirelles jamais abandonou suas pretensões políticas. Para começar, ele chegou ao posto como o candidato a deputado federal (pelo PSDB) mais votado em Goiás. E, depois, nunca descuidou de tais pretensões. Para falar a verdade, ao longo de sua gestão no BC, Meirelles aumentou suas ambições políticas. O projeto de concorrer a governador de Goiás, agora de novo na estrada, evoluiu, num dado momento, para o delírio de se candidatar à presidência da República.  “Inconfidências” de “interlocutores próximos” a Meirelles para jornalistas confirmam a tentativa de articulação do projeto político improvável.

O fato é que as articulações políticas, com “p” de diversos tamanhos, consumiram e consomem uma parte não desprezível da agenda não oficial de Meirelles. Não sei, embora possa imaginar, a frequência de seus contatos extraoficiais com dirigentes partidários, com vistas à articulação de seu projeto político pessoal. Mas uma boa pista de seu modo de operar na política é o estreito nível de relacionamento “off the records” com jornalistas da chamada “grande mídia”.  Relatos de colegas me dão a convicção de que nenhum presidente de Banco Central, pelo menos desde Ernane Galvêas, na década de 70, operou como Meirelles nos altos escalões das redações dos grandes jornais.

Para o mercado financeiro, nada disso parecia ter tumultuado até agora a atuação de Meirelles na condução da política monetária. Numa simplificação exagerada e ideológica, a ele – e, vá lá, à sorte de Lula – os porta-vozes do mercado creditavam todo o êxito da política econômica do atual governo.  Mas o “risco eleitoral” – aquele jeito fácil de ganhar dinheiro aterrorizando os trouxas – grudou no calendário precoce de Lula e está falando mais alto. Tão alto que Meirelles pode ser vítima do próprio veneno. 

 

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