Melhor não deixar para amanhã

José Paulo Kupfer

15 de junho de 2009 | 17h02

Confesso que fiquei um pouquinho decepcionado, no post da semana passada sobre o PIB do primeiro trimestre, com a ausência de comentários a respeito dos péssimos números do investimento. Também já tinha ficado meio assim, num outro post, este sobre a meta de inflação para 2011, a ser fixada ainda agora em junho.

No primeiro caso, a discussão foi acesa, mas não em relação aos efeitos a prazo mais longo de um tal derretimento dos investimentos. No segundo, a reação dos leitores-comentaristas foi morna. A falta de entusiasmo no debate, em ambos os casos, me passou a mensagem de que esses não foram considerados temas relevantes – pelo menos no momento.

Estes são, no entanto, temas da maior relevância. Sua importância é ainda maior justamente pelos impactos que produzem no futuro. Se a decisão de hoje, em relação aos investimentos e à meta de inflação, não for bem fundamentada, o resultado de amanhã estará, fatalmente, comprometido.

Enquanto a capacidade ociosa permite à economia galopar, afrouxam os estímulos para definir hoje – via estímulos aos investimentos – as bases do crescimento futuro. Do mesmo modo, deixar de lado o debate das metas de inflação, só porque só vai valer daqui a um ano e meio, pode levar a erros na definição dos tetos balizadores da política monetária. E, assim, mesmo que se acerte com os investimentos, o crescimento poderá ficar comprometido. 

São, como se vê, dois pontos cruciais para o crescimento econômico num futuro bem próximo. Mas parece que não produzem muita emoção. Mexe mais com a pele ficar olhando o passado e o quanto Lula ou FHC fizeram mais ou menos no que já foi feito. 

Imagino também que isso acontece porque, decidir hoje o que será melhor amanhã exige suar muito mais a camisa para reunir conhecimento aprofundado e produzir planejamento apropriado.

Acho que todo mundo entende isso, mas, na vida prática, a tendência é sempre deixar tais assuntos para depois. Só que o depois, nesses casos, é sinônimo de “já era”…

* * *

Aproveito o mote para reproduzir o artigo do economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP, publicado sábado, na Folha, sobre a definição da meta de inflação de 2011. Lacerda defende a manutenção da meta de 4,5%, em vigor na última meia dúzia de anos. É um texto conciso e claro.

SAMBA DE UMA META SÓ
Antonio Corrêa de Lacerda

DEFENDO QUE o Conselho Monetário Nacional deve manter a meta de inflação de 4,5% para 2011. Isso porque, dada a combinação de políticas macroeconômicas em prática no Brasil, uma diminuição da meta só servirá de álibi para a manutenção de uma política monetária excessivamente conservadora.

Há de fato evidências no enfoque baseado na teoria econômica ortodoxa de que, internacionalmente, uma meta mais apertada tende a levar a uma inflação mais baixa, na medida em que faria convergir as expectativas para uma menor variação de preços e que tenderia a se consolidar na prática.

O sistema de metas de inflação, que está completando dez anos de implantação no Brasil, tem suas virtudes, mas também tem debilidades. A virtude foi ganhar relativa credibilidade, o que proporcionou maior previsibilidade na política monetária e um horizonte mais transparente para o planejamento e as decisões dos agentes econômicos.

No entanto, o sistema de metas de inflação também apresenta grandes distorções. A primeira é que a meta é definida e acompanhada com base na inflação “cheia” (o IPCA). O ideal seria focar em uma inflação núcleo, mais liberta das influências conjunturais e também do grande impacto da indexação remanescente de preços ao IGP e IGP-M, como tarifas, aluguéis e outros.

Destaque-se que esses índices sofrem muita influência do comportamento dos preços no atacado e da taxa de câmbio. Ou seja, toda vez que há um choque de preços de commodities ou no câmbio, há um aperto na política monetária para derrubar os preços livres de forma a compensar os demais aumentos e fazer convergir a inflação média para a meta.

A segunda anomalia está no horizonte muito curto de foco do sistema de metas de inflação, o que engessa demasiadamente a política monetária. O ideal seria flexibilizá-la, considerando um horizonte mais amplo, de 24 ou 36 meses, por exemplo. Toda política econômica envolve escolhas, e o que deveria definir o conjunto das escolhas é relação custo/beneficio de cada medida.

O terceiro ponto é que o critério de captura das expectativas do mercado por meio do boletim Focus tem se mostrado enviesado. Isso porque o boletim publicado semanalmente pelo Banco Central, que expressa as expectativas do comportamento dos principais indicadores futuros, é excessivamente centrado no mercado financeiro. Seria oportuno captar também as expectativas do setor produtivo, da academia e de outros segmentos importantes da sociedade.

A prática leva a uma situação em que as expectativas tendem a se autorreferendarem. O “mercado”, com forte repercussão na mídia, expressa o que acha que o Copom vai fazer em cada reunião. Este, por sua vez, invariavelmente, tende a atender às expectativas do mercado, gerando um pseudo consenso.

Talvez esse viés de foco ajude a explicar alguns evidentes erros de diagnóstico do Copom, expressos na ata das suas reuniões. Isso fica especialmente evidente quando a economia dá grandes viradas, o que só aparece nos indicadores com defasagem, como ocorreu no quarto trimestre do ano passado, com o agravamento da crise internacional. Ao olhar fundamentalmente para o retrovisor, o Banco Central procrastinou a redução da taxa de juros no Brasil e nos fez importar uma parcela maior da recessão dos países ricos.

Por último, mas não menos importante, é a debilidade de o sistema de metas de inflação ser o único objetivo explícito do conjunto das políticas macroeconômicas. Ou seja, ao centrar o foco da calibragem dos juros exclusivamente no curto prazo e na inflação, desconsidera outros efeitos importantes sobre o nível de atividades, câmbio, investimentos, emprego e renda, além do custo de financiamento da dívida pública.

Assim, por todos esses motivos, o melhor mesmo é manter a meta, a despeito da possível vantagem que poderia trazer reduzi-la. Enquanto persistirem as distorções apontadas, na prática, o “samba de uma meta só” acaba prevalecendo, fazendo com que todos os demais objetivos dancem.
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ANTONIO CORRÊA DE LACERDA, doutor pelo IE/Unicamp, é professor doutor do departamento de Economia da PUC-SP e co-autor de “Economia Brasileira”, entre outros livros. Foi presidente da Sobeet e do Cofecon.

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