Menos fichas na mesma aposta

José Paulo Kupfer

28 de abril de 2011 | 18h14

Depois da divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta quinta-feira, em que são detalhadas as razões que levaram os diretores do Banco Central a elevar, na semana passada, os juros básicos em 0,25 ponto, o mercado concluiu que ele, mercado, ganhou a queda de braço com o Banco Central. Alguns pontos da ata, de fato, permitem “ler” que o BC, que não está conseguindo fazer a inflação convergir para o centro da meta, na velocidade desejada pelos analistas de banco e consultorias econômicas, convergiu enfim para uma posição mais próxima à do mercado. Mas será que, na essência, é possível dizer que terminou o descolamento entre mercado e BC, exato um ano depois do início das divergências?

Na ata, o BC reconheceu que, em relação à reunião de março, os cenários para a inflação ficaram mais desfavoráveis. Destacou também que, no combate à alta de preços, a política de juros tende a ser mais eficaz do que ações macroprudenciais, especialmente quando se trata de evitar que “pressões detectadas em horizontes mais curtos não se propaguem para horizontes mais longos”. E ressaltou que a demanda continua aquecida, embora sua expansão  revele “moderação, em ritmo ainda incerto”. Isso é música para o mercado, que vinha insistindo nesses pontos há algum tempo.

Na mesma ata, porém, o BC reafirma o cenário básico (por ele chamado “central”) que vem projetando para a trajetória de inflação em 2011.  O cenário prevê resultados acumulados em 12 meses acima do centro da meta até o terceiro trimestre, mas, a partir do último trimestre, a inflação começaria a recuar e convergir para o centro da meta em 2012. Estima também que já está em curso um processo de redução no ritmo de concessões de crédito – importante fator de alívio de pressões inflacionárias. Neste mesmo cenário central, o BC considera a obtenção do superávit primário previsto na meta fiscal para 2011 e, nesse sentido, enfatiza que, desde o início do ano, “importantes decisões foram tomadas e executadas”, reforçando a “visão de que está em curso um processo de consolidação fiscal”. Não é bem essa a avaliação do mercado, que desconfia do ajuste fiscal e tem sérias dúvidas sobre as previsões do BC para o recuo da inflação, nos últimos três meses do ano.

Quando se espremem as variadas considerações registradas na ata do Copom, não é exatamente na tecla que o mercado vem batendo que o BC parece querer apertar. A leitura da ata sugere que o Copom estaria propenso a decidir por mais duas ou três altas da taxa Selic, mas em doses baixas de 0,25 ponto – não uma ou no máximo duas talagadas de 0,5 ponto cada, como o mercado vinha sugerindo. Seria, no acumulado do ano, até mais do que o mercado queria, só que mais devagar e com mais moderação.

No fim das contas, é possível concluir que o BC retirou fichas da mesa, mas continua bancando a mesma aposta.

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