Mercados financeiros: sinal amarelo para quem não é do ramo

José Paulo Kupfer

19 de outubro de 2016 | 07h00

O mercado está impaciente, aguardando a definição dos juros, logo mais. A aposta da maioria dos entendidos é a de que começa hoje um ciclo longo e acentuado de redução nas taxas básicas de juros. Há agitação na praça e a cotação dos ativos financeiros está refletindo esse sentimento.

Investidores em ativos financeiros, no mercado brasileiro, não sendo profissionais do ramo, por isso mesmo, deveriam manter as barbas de molho — mesmo que não usem barba. A puxada está muito forte e não há argumento suficientemente convincente para sustentar o rally das últimas semanas. Logo, sinal amarelo aceso.

Do ponto de vista estrutural, não há no horizonte uma recuperação da economia capaz de bancar a escalada das cotações das ações. No que se refere ao câmbio, então, nem se fala.

OK, há as expectativas e a conversa da recuperação da confiança. Isso, sem dúvida, influencia as cotações. Mas, por não derivarem exatamente de fatos mensuráveis, são ondas que, a exemplo de nuvens e fumaças, como vêm, podem ir.

Se, no mercado externo, a expectativa alimentada é de alta nos juros de referência nos Estados Unidos, as bolsas de valores deveriam refletir essa possibilidade, mostrando tendência de baixa ou, no mínimo, uma direção indefinida. Mas não é isso que parece estar acontecendo e uma clara animação toma conta do mercado.

Aqui, às vésperas do início de um ciclo de redução dos juros, que promete ser longo e acentuado, faz sentido que a Bolsa dê pinotes e quebre recordes.  Mas, cuidado: a escalada dos últimos pode estar expressando uma antecipação dos fatos. E o refluxo, ainda mais depois de altas tão significativas, pode estar ali na frente.

No câmbio, contudo, era para ser justo o inverso. Qual a base da presente etapa de valorização do real? Nos regimes de câmbio flutuante, mesmo sujos, as cotações, tecnicamente, deveriam variar na razão inversa da trajetória dos juros. No tempo em que os animais falavam, em resumo, taxa de juros em queda queria dizer dólar em alta — e  moeda local desvalorizada. Mas, quando a liquidez é de inundação, manobras especulativas é que costumam determinar o comportamento das cotações.

Tem sido detectada presença de estrangeiro nos mercados domésticos de ativos financeiros. É aquele dinheiro solto no mundo, que busca rentabilidade onde encontra — e esta, definitivamente, por enquanto, não está nos mercados dos Estados Unidos, Europa e Japão, nos quais os juros são até negativos. E que, movido por cálculos que nada têm, de fato, a ver com a economia local, vem e vão ao sabor dos movimentos de arbitragem de taxas.

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