Minha noite com Janis Joplin no carnaval

José Paulo Kupfer

16 de fevereiro de 2010 | 23h58

Vendo e lendo sobre o carnaval das celebridades, das Madonnas, Paris Hiltons e outros menos votados, me deu um estalo de memória – essa ingrata que vive a nos jogar em armadilhas. Faz 40 anos que tive minha noite com Janis Joplin!

Foi em fevereiro de 1970. Janis, ícone radical da geração 68, tinha acabado de completar 27 anos e veio passar férias no Rio, em pleno carnaval. Não me lembro quem a trouxe, mas garanto que não foi nenhum desses esquemas comerciais de hoje.

Minha noite com Janis foi no desfile das escolas de samba daquele ano. Fiquei com ela algumas horas no palanque da revista “Manchete”. Não sei por que coube a mim fazer o papel de guia de turismo e explicar para a cantora de blues, famosa e cultuada, o que se desenrolava lá embaixo, na avenida Presidente Vargas, onde as escolas então desfilavam.

O palanque da “Manchete” era um puxadinho no alto das estruturas de andaimes, nas quais eram montadas (e depois desmontadas) as arquibancadas. Não havia camarotes, na acepção brega atual, que combina ostentação, exibição, marketing e futilidades variadas.

Um contínuo da revista ficava na porta, controlando o movimento, mas a área estava sempre superlotada, com gente se espremendo para ver uma nesga da avenida e da evolução das escolas. O “menu”, longe das cascatas de camarão e do champanhe dos camarotes de hoje, se limitava a uns sanduíches frios, refrigerantes e água.

Não me lembro se circulava algum tipo de bebida alcoólica. Mas minha memória me diz que não, nem cerveja, até porque o farnel, ainda que os bicões não fossem discriminados, era preparado com a justificativa de atender a turma de repórteres, fotógrafos e assistentes, que estava ali a trabalho.

A Manchete tinha tradição de carnaval e era um ponto de honra sair, já na quarta-feira de cinzas, com uma edição da “Fatos & Fotos” e, na quinta, com uma completíssima e colorida edição da “Manchete”. Para realizar a façanha – porque, naquele tempo, era uma façanha industrial colocar nas bancas, em tempo tão curto, uma publicação com mais de uma centena de páginas recheadas de fotos coloridas –, a Bloch mobilizava um batalhão de gente, levando e trazendo rolos de filme para a sede, na Praia do Flamengo, para processamento tão imediato quanto as condições técnicas da época possibilitavam.

Janis já tinha armado umas confusões para entrar no meio do desfile e deve ter sido levada depois disso para o palanque da Manchete. Estava vestida com uma camisetinha, calça jeans, “fantasiada” com uma tiara de melindrosa, com duas penas coloridas na cabeça, dessas da rua da Alfândega, no Rio, ou da 25 de Março, em São Paulo.

Demonstrou interesse pelo desfile e perguntou bastante sobre vários aspectos da festa. Eu, um pós-foca de 21 anos, com dois anos e pouco de jornalismo, já era “experiente” de duas coberturas de escolas de samba. Fiquei fascinado ao encontrar interlocutora que parecia tão sinceramente interessada nos detalhes de uma tradição popular brasileira que eu estava aprendendo a amar – e que iria acompanhar, em coberturas memoráveis ou só como espectador, daí para frente. Me esmerei nas informações históricas e nos detalhes do desfile.

Sei que a memória – como a História – é uma invenção. Por isso, ao relembrar minha noite com Janis Joplin, sempre estranhei um detalhe: nas imagens que vinham à mente, diferentemente do que se poderia esperar, ela não aparecia com copo na mão, não arredara pé para se drogar, nem mesmo fumar um cigarro. Ficou ali um bom tempo – duas, quatro horas, não lembro –, num canto do palanque, meio espremida como todo mundo, balançando o corpo discretamente ao som do samba, sorrindo, perguntando e fazendo comentários.

Hoje, com o carnaval de 2010 chegando ao fim, quando minha noite com Janis Joplin voltou na lembrança, fui atrás dos registros da passagem da cantora pelo Brasil e pelo carnaval do Rio. E não é que, na Wikipedia e em outros relatos, está lá registrado que Janis veio ao Brasil, com uma pequena trupe, num esforço para deixar a heroína e o álcool?

Parece que não foi nada fácil porque ela, além da confusão no desfile, aprontou outras. Foi expulsa do Copacabana Palace por nadar nua na piscina, provocou algum escândalo por fazer topless na praia e, segundo a lenda, teve tempo de engatar casos com dois brasileiros – não, não, apesar da noite com Janis, eu não era um deles.

Não sei se ela encheu a cara e se aplicou nas férias de desintoxicação no Rio – um tal programa em pleno carnaval, no Brasil, é uma coisa que não fecha, mas, enfim… O que sei é que a Janis Joplin que passou uma noite comigo era uma mocinha meio tímida, magra e nada sexy, de pele muito branca e acne no rosto. E que iria morrer, poucos meses depois, em outubro, de uma overdose de heroína.

O carnaval de 1970 foi ganho pela Portela, com o enredo “Lendas e mistérios da Amazônia”. Na noite que passou comigo, Janis Joplin viu um desfile inesquecível e ouviu um dos mais belos sambas de todos os tempos.

* * *

Em, 2004, a Portela reeditou o carnaval de 1970 e voltou com “Lendas e Mistérios da Amazônia”. No vídeo abaixo, a transmissão da TV Globo, com o samba antológico, mas já naquela cadência acelerada dos desfiles atuais. Não é a mesma coisa, mas dá uma ideia.