Coluna

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Mitologia cambial e suicídio econômico

José Paulo Kupfer

24 de novembro de 2009 | 09h28

O infindável debate sobre o ponto mais adequado para a taxa de câmbio é infindável porque envolve não só visões econômicas divergentes, mas também conceitos econômicos não intuitivos. A economia, aliás, é um prato cheio de conceitos não intuitivos.

Um conceito não intuitivo, apenas para dar um exemplo, é o da inflação. Quando pensamos em inflação, normalmente associamos o conceito a “preços altos”. Só que inflação não é preço alto. É alta persistente de preços.

Sem entender a diferença entre “preço alto” e “alta de preços” será impossível, também por exemplo, entender o bem-sucedido mecanismo utilizado no Plano Real.  A derrubada da inflação, a partir de 30 de junho de 1994, de uma média mensal de 43%, no primeiro semestre daquele ano, para uma média mensal de 3%, no segundo semestre poderia parecer um passe de mágica.

Nada disso. Foi um tiro fulminante na inércia inflacionária que contaminava os preços, baseado na melhor teoria econômica e num diagnóstico certeiro das raízes do problema. E totalmente não intuitivo. A O êxito quase instantâneo no combate à hiperinflação instalada deveu-se a uma ação que, no primeiro momento, em lugar de segurar os preços, impulsionou-os, deliberadamente, ainda mais para cima (lembram-se da URV, que corrigia os preços diariamente?).

No caso do câmbio, é comum confundir moeda forte com economia forte. Uma coisa, na verdade, tem a ver com a outra, mas em termos absolutamente relativos, principalmente quando a moeda em questão não é conversível. Não é preciso ir muito longe para comprovar a afirmação. Está aí a China, com sua economia poderosa e uma moeda “fraca”, propositalmente desvalorizada em relação ao dólar – como estão aí os tigres asiáticos sobreviventes, como a Coréia do Sul, que também praticam políticas de desvalorização de suas moedas.

É tal o valor atribuído por muitos à manutenção de uma moeda forte que chegam a confundi-la com os símbolos da pátria. Trata-se de um evidente engano “naturalista”. Os símbolos nacionais são definidos em lei – Bandeira Nacional, Hino Nacional, Armas Nacionais e Selo Nacional. A moeda que circula sem concorrentes no País, também por força de lei, por óbvio, não está – nem poderia estar – entre eles.

Já o argumento de que um câmbio valorizado beneficia os consumidores não é tanto uma confusão de conceitos. É mais a resultante de uma visão econômica de horizontes estreitos, como é estreita a visão de que desvalorizações relativas do câmbio só beneficiam os setores exportadores – ou, como preferem dizer os defensores dessa visão, premiam a ineficiência dos exportadores, em detrimento do resto da sociedade, principalmente os mais pobres. Puro populismo cambial.

Verdade que o câmbio valorizado, no curto prazo, barateia as importações e estas, competindo com a produção local, forçam uma baixa geral de preços, favorecendo os consumidores. Mas, já no médio prazo, o raciocínio fica torto. Consumidores, antes de consumir, são trabalhadores (ou rentistas). A renda de seu emprego – ou trabalho ou aplicações – é o que os capacita como consumidores.

Caso, porém, por conta da competição com os importados, a empresa local entre em dificuldades, empregos serão cortados. E os consumidores, antes beneficiados pelas importações, agora perderão renda e deixarão de ser consumidores. Não é nada difícil entender o que ocorre: importar significa garantir  empregos não no mercado doméstico, mas nos mercados de origem das importações.

Moeda local valorizada também é vista por alguns – entre eles, economistas de nomeada – como uma boa idéia para aumentar os investimentos e modernizar a produção local. Beleza. Adquirir máquinas e equipamentos é, sem dúvida, investir. Mas, se todos os empreendedores apenas investissem em importações, para ampliar ou modernizar sua produção, em pouco tempo, surgiriam consequências macroeconômicas adversas.

Seu parque produtivo estalando de novo produziria para quem? Para os que perdem seus empregos com a invasão dos importados? Bem, esses estarão impedidos, por estarem na fila do seguro-desemprego, de se interessar por tal produção “modernizada”. Em consequência, a taxa de investimento, num segundo momento, acabará se reduzindo.

Outra conseqüência grave – e nefasta – desse “investimento” com origem em importações de custo baixo, propiciadas pela moeda local valorizada, é o desestímulo à inovação e ao desenvolvimento tecnológico local. Quem vai  desenvolver pesquisas, formar e contratar engenheiros e projetistas, enfim, produzir tecnologia, se  equipamentos avançados estão ali à mão por preços atraentes?

O destino final de uma política apoiada no fatalismo da valorização da moeda é uma crise cambial. Somos especialistas no assunto e nem todas as melhorias nos chamados fundamentos econômicos e nem todos os avanços da globalização serão suficientes para eliminar os riscos de novas eclosões, se for permitido à taxa de câmbio derreter ao som de uma conjuntura de liquidez internacional e copiosos ingressos de capitais externos.

Não só as importações se acelerarão, enquanto as exportações marcarão passo, dando espaço direto à crise. A especialização das exportações em mercadorias de menor valor agregado e baixa densidade tecnológica, aprofundarão a tendência indesejável pela deterioração dos termos de troca. Na hipótese de normalidade no comércio internacional – e, por incrível que pareça, a normalidade é a regra nesse mercado –, a economia nesta situação terá de exportar mais e mais commodities para poder importar as máquinas e equipamentos indispensáveis ao seu crescimento.

Definitivamente, a política de valorização cambial, que “beneficia” os consumidores, é um suicídio econômico e social anunciado.

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