Mudança de idéia

José Paulo Kupfer

11 de outubro de 2008 | 09h46

Martin Wolf mudou de idéia. Se Martin Wolf, o ícone dos colunistas liberais de economia pode, eu, que nem chego aos pés, nem professo, em economia, a fé liberal, posso muito mais. Citando uma famosa frase atribuída a Lord Keynes (“Quando os fatos mudam, eu mudo de idéia”), Martin confessa ter demorado algum tempo para perceber as dimensões da crise. Ele acha que o medo atual é exagerado e o pânico, injustificado. Mas está convencido de que o pânico, mesmo injustificado, também produz devastação. Martin Wolf acha que os governos devem fazer “tudo” para salvar o mercado.

Longe de mim, repito, qualquer comparação com Martin Wolf, o célebre colunista-chefe do Financial Times, defensor intransigente da pureza do mercado, mas eu também mudei de idéia. Também acho que há exagero no pânico – mas, e daí? Fui iludido pela crença, talvez excessiva, na racionalidade econômica. Achei que a crise se restringiria ao mundo financeiro e imaginei que a economia brasileira, sempre uma das primeiras vítimas das turbulências globais, desta vez estaria relativamente a salvo. Esperei um tempo torcendo para estar certo. Mas agora estou certo de que errei.

Quando a crise começou a mostrar seus dentes, meu cálculo foi o de que os governos, liderados pelo dos Estados Unidos, deixariam de lado o discurso neoliberal e topariam algum tipo de socorro público aos até pouco antes louvados operadores financeiros privados. Até aí eu estava acertando. Isso me parecia suficiente para acalmar as coisas a ponto de dar espaço a uma reestruturação mais organizada das regulações de mercado. O socorro veio e não funcionou. Errei de novo.

Na quarta-feira, vai fazer um mês que Lehman Brothers quebrou. De lá para cá, a tão falada compostura liberal dos governos foi sendo substituída por um crescente desembaraço no despejo de montanhas de dinheiro público em instituições privadas apodrecidas e intoxicadas pela ganância sem limite – e sem controle dos reguladores. Mas constato que o resultado prático tem sido nenhum.

Na Bolsa de Nova York, o índice Dow Jones fechou a semana com uma queda acumulada de 18%. A maior da sua história em todos os tempos. Nas bolsas européias, tombos acima de 20%. Em São Paulo, na mesma semana, recuo de 20%. Uma queda livre, geral e irrestrita.

Jamais imaginei que fosse assistir ao que parece ser o próximo capítulo do melodrama em que se transformou o resgate dos mercados: a estatização do sistema financeiro nas economias avançadas. Em mais uma ironia das muitas que a História tem produzido nesta crise, é a Inglaterra, campeã das privatizações, que está puxando o trem estatista – um trem cada vez com mais vagões.

Reunido em Washington, por ocasião do encontro de outono do FMI e do Banco Mundial, neste fim de semana, o G7 anunciou que utilizará “todas as ferramentas disponíveis” para estancar a crise. Pode ser que, agora, eu fosse começar a acertar. Mas, é tarde, já errei bastante. Não tenho a cara-de-pau de alguns profetas da economia, que se fixam numa posição e ficam firmes até que o pêndulo lhes seja favorável (seria o caso de Noriel Roubini, o grande mago do momento?), valendo-se do “método do relógio quebrado”, segundo o qual, mesmo parado, o relógio acerta a hora duas vezes por dia.  

Está uma correria para encontrar a fórmula que permita superar a generalizada desconfiança que se abateu sobre os mercados. A falta de confiança trava a liquidez e expõe as fragilidades de diversos setores da economia real. O canal de contaminação da crise financeira para a economia real é a falta de crédito. Vivemos uma inédita crise de crédito e sem crédito a economia real, mesmo bem estruturada e com alto potencial de produtividade, não funciona.

No Brasil, o que se pode enxergar ainda é uma crise de liquidez – não de solvência como, por exemplo, assola Estados Unidos e Europa. Mas, se o empoçamento persistir, a solvência entrará em zona de risco. A situação, lamento ter chegado a essa conclusão, não é nada simples e preocupa.

Além dos “produtos” financeiros que levaram a apostas insanas numa eterna valorização do real e, com a quebra da aposta, a prejuízos monumentais, sabe-se que, mais recentemente, acelerou-se a tomada de recursos externos pelos bancos e o repasse dessas linhas a empresas de todo o tipo, com cláusulas de correção cambial.

Também o governo brasileiro terá de fazer “tudo” para evitar o prolongamento do pânico e algumas quebradeiras. Também aqui haverá rearranjos setoriais, com transferências de controles, fusões e aquisições.

Ainda não estou convencido de que a economia real – a do Brasil, em especial, hoje bem ancorada no mercado interno –, ao contrário do setor financeiro das economias centrais, encontre-se em estado terminal. Mas não está tudo bem, como eu achava que, tudo bem pesado e no fim das contas, estava.

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