Mudanças ou "mudanças"?

José Paulo Kupfer

13 de novembro de 2008 | 18h35

Em nossas conversas cotidianas, temos observado, eu e o Leandro Modé, que muitas das mudanças ocorridas na economia depois da quebra do Lehman Brothers, não passaram, pelo menos até agora, de “mudanças”. Nossa lista das “mudanças” que, afinal, parecem não ter mudado, tem três destaques:

1) O “decoupling” (o descolamento das economias emergentes da crise que pegou os industrializados);

2) a atração pelo dólar; e

3) reservas volumosas como seguro contra ataques às moedas locais.

Ainda não completamos nem dois meses de crise, mas, com essa ressalva, o que temos até aqui é:

1) O “decoupling” não existe;

2) O dólar, apesar da crise nos EUA, mantém a força de reserva global; e

3) Reservas grandes, como o caso russo, não garantem estabilidade às moedas.

* * *

O novo velho mundo

por Leandro Modé

O crescimento robusto da economia global nos últimos anos, o maior desde o pós-guerra, levou muitos analistas a acreditar que estávamos em um mundo novo. É inegável que houve mudanças significativas, entre elas o aumento do peso dos países emergentes. Mas a crise está mostrando que muitas das antigas premissas continuam aí, de pé, firmes e fortes.
 
Tome-se como exemplo a reação dos países emergentes. A idéia de que ficariam praticamente imunes a uma desaceleração do mundo desenvolvido (o famoso decoupling) não só foi totalmente enterrada, como se mostrou um equívoco brutal. O FMI, que muitos reputavam como uma instituição sem futuro, voltou à cena nas últimas semanas para socorrer, com pacotes bilionários, dois emergentes: Ucrânia e Hungria. 
 
Apesar da munição pesada para defender o rublo – mais de US$ 600 bilhões em reservas -, a Rússia está sofrendo um ataque especulativo, no estilo daqueles que derrubaram vários regimes de câmbio fixo na década de 90. O país já aumentou a banda de flutuação da moeda nacional ante o dólar e até elevou de 7% para 8% a taxa básica de juros para tentar conter a saída de capitais. As duas bolsas russas foram fechadas em diversas ocasiões de setembro para cá, em razão de quedas diárias superiores a 15%.
 
O caso da Rússia, aliás, derruba duas crenças de uma só vez. Além do ‘recolamento’ dos emergentes, mostra que o tamanho das reservas deve ser relativizado. Se nem US$ 600 bilhões são capazes de segurar o ímpeto dos investidores no meio do pânico, o que dizer dos US$ 200 bilhões do Brasil? É claro que é um bom seguro, melhor do que não ter nada ou quase nada. Mas afirmar que, por si só, US$ 200 bilhões blindam uma economia do tamanho da brasileira é uma temeridade.
 
É por essas e outras que o governo dos Estados Unidos faz onda com o G-20, mas não acena com mudanças efetivas na chamada arquitetura do sistema financeiro global. Eles sabem, e muito bem, que todo mundo, quando a coisa aperta, se refugia lá, mais especificamente nos títulos do Tesouro americano.
 
Basta ver a recuperação dólar ante todas as moedas globais desde o agravamento da crise, em meados de setembro. Essa, diga-se, é outra ‘crença’ da ‘nova economia’ que está sendo enterrada. As verdinhas ainda são o porto seguro do investidor global. 

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