Juros

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Na onda da marolinha

José Paulo Kupfer

17 de março de 2009 | 07h20

Mesmo os mais cabeludos já estão carecas de saber que o presidente Lula exagerou, exageradamente, ao dizer, em outubro passado, que a crise – “um tsunami lá nos Estados Unidos – chegaria ao Brasil, se chegasse, como uma “marolinha”. Hoje, Lula é malhado, com razão, sem dó nem piedade, por gregos e baianos – principalmente os que lhe fazem oposição.
 
Só que tem um problema aí. Lula cantou de galo fora do tom, mas não foi, nem de longe, o único. Gente boa, aliás, gente muito boa, à frente alguns dos delfins (sem trocadilhos, por favor) mais emplumados do tucanato econômico, embarcou na mesma onda (de novo sem trocadilhos, por favor).

Meu colega e interlocutor Leandro Modé, aquele jovem e bom jornalista da Economia do Estadão, que volta e meia eu gosto de citar aqui, aceitou meu desafio e saiu atrás de declarações dos melhores críticos de Lula nas questões econômicas. Ele recuperou afirmações de vários luminares, feitas na mesma época da “boutade” de Lula.

É claro que, como são políticos, mas não fazem política como profissão, não apelaram para o tom normalmente ufanista de Lula. Mas fica claro também que, ali por outubro, quando Lula perpetrou sua apredejadíssima frase de efeito, muitos dos melhores especialistas do ramo acreditavam, como Lula, numa certa blindagem da economia brasileira.

Aqui vai uma seleta de insuspeitos marolistas:

“Para o Brasil, haverá uma desaceleração importante, uma vez que ocorre uma queda na demanda global e as commodities vêm caindo de preço. Mas temos um sistema financeiro bem capitalizado, embora tenha passado por exageros como no financiamento de automóveis em nove anos e também na concessão de crédito consignado. Cabe abrir o olho, mas não há razão para achar que vamos viver o mesmo que acontece lá fora.”

(Arminio Fraga, ex-presidente do BC, em 13/11/2008)

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“A crise é um choque externo e temos que cuidar da correia de transmissão. Se a gente trabalhar direito não há razão para isso se transformar numa crise doméstica.” (

(Gustavo Franco em 14/10/2008).

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 “O Brasil tem tudo para sair bem da tormenta. É o prêmio pelos avanços institucionais de muitos anos (embora o governo teime em reivindicar tudo para si). Nas outras crises, quebramos; agora, o custo é crescer menos”.

(Mailson da Nóbrega em artigo publicado em Veja no dia 31/12/2008)
 

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 “Nossos vícios na área financeira acabaram por se revelar virtudes. Reservas elevadas, bancos públicos fortes, juros e compulsórios elevados mostraram-se importantes. Temos dinheiro para gastar, agora. O ajuste brasileiro tende a ser suave.”

(Edmar Bacha, em 02/12/2008)

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“A gente ainda tem uma inflação um pouco maior e mais teimosa do que gostaria de ter. Não dou por encerrado o ciclo de alta de juros.”

(Eduardo Loyo, economista-chefe para a América Latina do UBS Pactual e ex-diretor do Banco Central, em 14/10/2008).

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“Claro que o Brasil vai ser afetado. Vai desacelerar, mas não vejo nada de muito dramático em uma situação dessas. Já tivemos crescimento baixo no passado. A parte fundamental da economia brasileira ainda me parece bastante sólida, exceto pela parte de gastos públicos, que já vêm altos há muito tempo.”

(Claudio Haddad, economista e presidente do Ibmec São Paulo, em fins de outubro de 2008).
 
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“O Brasil sentirá algum arranhão com a crise, que não deve afetar o crescimento da economia.”

(Márcio Cypriano, então presidente do Bradesco, 28/01/2009).

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“Não existem questionamentos sobre a situação do Brasil. A liquidez interna é boa. Existe uma tendência de encurtamento de prazos, mas não dá para dizer que é significativa e que tenha impacto na economia.”

(Fabio Barbosa, presidente da Febraban, em 17 de setembro de 2008).

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“O PIB mundial deve desacelerar significativamente, assim como o do Brasil. Economistas estimam – na medida do possível, dada a incerteza elevada, hoje – um crescimento médio em torno de 3%-3,5% para o ano que vem. Essa taxa poderia ser considerada moderada, mas não muito. Se o Brasil parar de crescer a partir de janeiro, a média do produto interno bruto (PIB) de 2009 ainda vai ser maior que a média de 2008 em 1,4% (o chamado carry do crescimento). Um crescimento de 3% em 2009 significa um crescimento marginal nesse ano em torno de apenas (ou será ainda?) 1,6%.”

(Ilan Goldfajn, ex-diretor do BC, em artigo publicado no “Estado” em 17/10/2008).
 

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 “Em termos de nível de atividade, continuamos muito melhor do que os países desenvolvidos, embora o crescimento de 2009 não deva ultrapassar os 3%. Se a recessão vier também bater à nossa porta, o BC tem, ao contrário dos bancos centrais do mundo desenvolvido, amplo espaço para baixar juros (e também liberar depósitos compulsórios). No momento, no entanto, tendo-se em conta os prováveis impactos inflacionários da acentuada depreciação do real, isso não parece nem necessário nem aconselhável.”

(Márcio Garcia, professor PUC-RJ, em artigo no jornal Valor do dia 21/11/2008).

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CRESCIMENTO DO PIB EM 2009 – 3%

(Mediana das previsões do Boletim Focus, em 31/10/2008).

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