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Não é tão trivial

José Paulo Kupfer

22 de abril de 2014 | 10h42

Talvez a famosa revista inglesa The Economist esteja se atrapalhando, quando trata do Brasil, em algum processo inconsciente de “mea culpa” pela publicação de uma reportagem de capa de louvação à economia brasileira, quando a biruta por aqui já começava a virar para o lado negativo. O fato é que depois disso, a pauta da publicação tem sido pródiga em matérias críticas ao modo brasileiro de lidar com os problemas econômicos.

Na edição atual, com data de 19 de abril, a revista volta à carga. O tema agora é a baixa produtividade da economia brasileira. Mais uma vez, porém, como tem sido comum nos últimos tempos, The Economist preferiu deixar de lado sua fama de abordar os assuntos sempre de uma perspectiva liberal, mas numa combinação de texto elegante e análise sofisticada.

Ao avaliar as razões da atual baixa produtividade do trabalhador brasileiro, manteve o texto fino e a defesa do liberalismo. A análise, contudo, além de trivial demais para um tema tão complexo, trai a adesão a uma generalização preconceituosa e injusta, segundo a qual os brasileiros são preguiçosos e ineficientes.

Para chegar a essa conclusão, a revista se valeu de um levantamento comparativo, que afere a produtividade do trabalho relacionando PIB com população ocupada. Por essa métrica, segundo a revista, a produtividade no Brasil está estagnada há 50 anos e, enquanto ela explica apenas 40% do crescimento econômico brasileiro de 1960 para cá, responderia por mais de 90% da expansão chinesa e por 60% da indiana, no mesmo período.

Acontece que, se são muitas as possibilidades de medir a produtividade de uma economia, a que relaciona PIB com o número de pessoas ocupadas é, de fato, das mais simples e intuitivas, mas também das que menos informam sobre o que se passa no mundo da produção. Por sua característica pouco desagregada, essa modo de medir a produtividade pode esconder — e costuma mesmo esconder — movimentos importantes no interior dos processos produtivos.

Nos últimos 50 anos, a economia brasileira passou por pelo menos três momentos de inflexão positiva numa história, não há como contestar, marcada por baixa produtividade. Ocorreram surtos de aumento de produtividade nos anos 60 e 70, como menciona The Economist, mas também em outros dois momentos — na década de 90 e nos primeiros oito anos da década de 2000. Não são resultados espetaculares, mas suficientes para deixar claro que o longo torpor descrito pela revista não passa de um exagero.

Nesses períodos, fatores diversos — e não apenas reformas liberalizantes, como quer fazer crer The Economist —, se combinaram para dar algum fôlego a aumentos de produtividade. No primeiro caso, o impulso veio em parte do crescimento acelerado, mas principalmente da ampliação do setor de bens de capital, promovido pelos Planos Nacionais de Desenvolvimento (PNDs), dos governos militares. No segundo, deu-se por força de uma onda de reestruturação produtiva, com a substituição de mão de obra por máquinas e a consequente eliminação de empregos — sim, é indesejável, mas a produtividade pode aumentar com redução do emprego. O último pico refletiu, em movimento contrário ao do período anterior, o crescimento do contingente de pessoas ocupadas, ainda que concentrado no setor de serviços, em que a produtividade é mais baixa, mas com intensa formalização no mercado de trabalho e aumento do número de horas trabalhadas.

Estudos consistentes dos economistas Samuel Pessôa e Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV-RJ), mostram que, apesar das dificuldades técnicas, a melhor medida de produtividade relaciona volume produzido a horas trabalhadas. Com base nesse parâmetro, os pesquisadores chegaram à conclusão de que, nas últimas três décadas, a produtividade do trabalho no Brasil se elevou mais de 30%, índice superior aos números obtidos por outras métricas.

 

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