Não há vida inteligente fora da alta dos juros?

José Paulo Kupfer

17 de junho de 2008 | 20h57

Os juros básicos pararam de cair, voltaram a subir, vão subir ainda mais, mas a inflação parece não dar muita bola para isso. Há uma alta ainda não virulenta, mas já bem generalizada de preços. As expectativas para o IPCA, no fim do ano, no mercado e no governo, estão, no momento, convergindo para as vizinhanças de 6% anuais. Se as projeções de momento se confirmarem, vai bater na trave do teto da faixa de variação da meta de inflação para 2008.

Há sinais, ainda um tanto difusos, de que a pressão dos preços dos alimentos começa a arrefecer. Dá para perceber um movimento de substituição, por produtos ou marcas mais em conta, e mesmo de corte no consumo. Já em abril, os dados da atividade do comércio varejista, divulgados hoje pelo IBGE, mostram uma queda nos supermercados. É a própria elevação dos preços, que corrói a renda real, fazendo o serviço de amansar a demanda.

Mas, agora, os rastilhos da inflação se deslocam para segmentos em que a demanda interna é a origem das pressões sobre os preços. Bens duráveis, movidos a crédito, habitação e serviços pessoais, impulsionados por melhorias na renda, puxam para cima os negócios e os preços.

Já não há dúvidas de que a demanda – o nome-resumo para a combinação de renda e crédito – está aquecida. Até aí não seria nada demais se a oferta global (doméstica mais importações) agüentasse o tranco. Demanda aquecida, diferentemente do que imagina um certo pavlovianismo econômico, não é sempre um problema – em certas circunstâncias, é solução. Mas, tudo indica que não é esse o caso no momento.

Vê-se, com mais clareza, que a demanda está quente justamente onde não há a válvula de escape das importações a engordar a oferta global. Nos aluguéis de imóveis, no consultório do médico e no salão do cabelereiro, os preços estão em alta, indicando um aquecimento desequilibrado da demanda. Ajustá-la é preciso.

A questão é como fazer o ajuste. O Banco Central já avisou que só tem uma fórmula: subir os juros. Com todo o respeito, se for só isso mesmo, a dose necessária terá de ser cavalar, muito acima do que imaginam os próprios economistas do mercado, que projetam uma taxa Selic de 14,25% anuais no fim do ano. E o resultado final, uma derrubada geral da economia, com riscos de desarranjo sério no lado exteno.

Existe um componente de inflação importada, que ingressa na economia pelo canal das compras externas de alimentos e de tudo aquilo que embute custos do petróleo, que não explica todo o movimento de alta dos preços, mas explica parte. No caso dessa inflação importada, seria necessário derrubar a taxa de câmbio até o ponto em que o recuo do dólar frente ao real fosse suficiente para compensar o preço mais alto com que os produtos de fora estão chegando ao mercado interno. Mesmo sem considerar essa inflação que vem de fora, a adoção solitária de uma política de restrição monetária, pela via exclusiva de elevações nos juros básicos, não mostra ser o melhor caminho.

Um dos elementos críticos do aquecimento da demanda é o crédito. Não que o volume total seja despropositado. Nada disso. Em relação ao tamanho da economia, ainda há bom espaço para a expansão do crédito. O problema, como apontou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em entrevista ao repórter Kennedy Alencar, da “Folha”, é a velocidade de sua evolução. O Banco Central dispõe dos elementos para moderar essa corrida. Poderia, por exemplo, impor limites mais estreitos aos prazos de financiamento.

É inegável, de outro lado, que os gastos do governo estão em alta, impulsionam a demanda global e contribuem para o atual desequilíbrio. Contê-los, elevando os superávits fiscais, parece ser uma imposição sensata do momento. Mas, também aqui, o pior será simplesmente fechar a torneira e promover cortes lineares. Melhor seria suar a camisa para diagnosticar e estancar desperdícios, preservando, verdadeiramente, os programas sociais.

Como no caso dos impostos, em que é possível arrecadar o mesmo tanto, cobrando mais e melhor de quem mais pode contribuir, nada impede que, em relação aos cortes de gastos, as áreas de atendimento básico sejam preservadas. O Brasil não tem uma história boa para contar nesse departamento, mas com critério e transparência, seria possível aumentar o superávit fiscal, contribuindo para aliviar a pressão da demanda, sem desarrumar os programas sociais e os investimentos em infra-estrutura.

Mirar num superávit primário de 5% do PIB, nessas condições, é até razoável. Falar nisso, já não estaria na hora de mirar uma meta de superávit fiscal nominal, incluindo as despesas com juros na conta? Assim como, nos tempos da correção monetária (ops… indexação), o Brasil negociava com o FMI metas de superávit operacional, depois do Plano Real, e ainda sufocado numa dívida externa dramática, passou a negociar metas de superávit primário (obrigando-se a mostrar ao mundo que tudo o que economizasse se destinaria ao pagamento dos juros da dívida). Mas, e agora, por que tratar com privilégios os gastos públicos com juros?

Resumindo a conversa, há caminhos fora dos juros, com menos efeitos colaterais, para enfrentar esse período de desajuste. Ou não?

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