Não pode ser na marra

José Paulo Kupfer

30 de junho de 2011 | 18h35

Nada difícil prever que o Conselho Monetário Nacional (CMN) manteria a meta de inflação para 2013 nos mesmos 4,5%, com a mesma margem de dois pontos para mais e para menos, dos últimos nove anos. Era tão certo que seria assim que as manifestações por uma redução da meta com uma pura e simples canetada do CMN, comuns a cada época de definição da meta de dois anos à frente, foram poucas e tímidas – ainda bem.

A ideia de que reduzir a meta por ato de vontade de pelo menos dois dos três integrantes do CMN, segundo seus defensores, normalmente perfilados no lado ortodoxo do pensamento econômico, se fundamenta na presunção de que, assim, o Banco Central se viria obrigado a perseguir a meta menor. E, diante da experiência já acumulada e relativamente bem sucedida de manter a inflação nos entornos do centro da meta, conseguiria fazer baixar a inflação.

Trata-se de uma verdade pela metade. A manobra até pode dar certo, mas não sem custo. O primeiro deles, muito provavelmente, viria dos efeitos colaterais de altas ainda maiores nas taxas de juros.

Há problemas estruturais que dificultam a redução da meta de inflação. Eles precisam ser removidos antes de se partir para metas menores. Um desses problemas, mas não o único, diz respeito à indexação de pelo menos um terço do IPCA, índice de preços usado no sistema de metas.

Não é possível reduzir a meta na marra, como não é possível reduzir a taxa básica de juros na marra, como querem os defensores da ideia, normalmente perfilados no lado heterodoxo do pensamento econômico, justamente porque há problemas estruturais que dificultam esse corte.

Até seria possível reduzir os juros com uma canetada, mas também nesse caso haveria custos. O primeiro deles, muito provavelmente, viria dos efeitos colaterais de pressões inflacionárias adicionais.

Obstáculos estruturais e específicos da economia brasileira tornam muito mais arriscado sintonizar a meta de inflação brasileira com a de outros emergentes. Do mesmo modo que problemas estruturais fazem com que o Brasil seja campeão de juros altos.

Melhor, então, seria não esperar mais um ano e, desde já, partir para a promoção de reformas que retirassem as dificuldades estruturais para baixar os juros assim como as dificuldades estruturais para reduzir a meta de inflação – e vice-versa.

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