Nervosismo no câmbio II

José Paulo Kupfer

22 de setembro de 2011 | 11h38

Os mercados estão sobressaltados, nesta manhã de quinta-feira. Os mercados de ações, aqui e lá fora, desabam, num movimento de montanha-russa que já se tornou costumeiro. O mercado cambial, como era de se supor, ainda não encontrou o pico e essa busca foi acentuada pelas turbulências externas.

Com o dólar chegando a valer R$ 1,95 – uma alta de mais de 4,5% sobre a cotação de fechamento do dia anterior –, o Banco Central anunciou um leilão de swap cambial convencional, o que significa venda da moeda americana no mercado futuro. O anúncio de que seriam vendidos R$ 5,5 bilhões fez a cotação da moeda americana recuar para R$ 1, 91. A previsão dos especialistas é que a o dólar mantenha pressão de alta ao longo do dia.

Os sinais vermelhos acenderam no dia anterior. A já persistente – e, antes disso, acelerada – escalada da cotação do dólar começou a incomodar espíritos mais ansiosos. Entende-se: só nos primeiros vinte dias de setembro, o real desvalorizou-se 16% frente o dólar e apenas na sessão desta quarta-feira subiu 2,8% – a maior alta diária desde o simbólico outubro de 2008.

Além de razões conjunturais, articuladas com o sombrio ambiente global – o que, entre outros efeitos, aguça a chamada “aversão a riscos” e o consequente repatriamento de recursos –, os especialistas em câmbio são praticamente unânimes em apontar as recentes decisões do governo, na área monetária e cambial, como o centro do movimento de desvalorização.

Ao cortar a taxa de juros e travar posições vendidas no mercado futuro de câmbio criou situação de pressão para os investidores, que carregam essas posições. Eles apostavam na valorização do real e na alta (ou manutenção) da taxa básica de juros e estão perdendo nas duas apostas. No último mês e meio, conforme apurou a Agência Estado, aplicadores no mercado futuro reduziram a posição vendida de um total entre US$ 20 bilhões e US$ 22 bilhões para US$ 8 bilhões a US$ 9 bilhões.

A tendência, para os especialistas, é que o próprio mercado se mova no sentido de ajustar posições. De qualquer maneira, o Banco Central também resolveu não arriscar e, antes do esperado movimento de mercado, decidiu, também nesta quarta-feira, não renovar os contratos de swap cambial reverso com vencimento em outubro. Ou seja, reverteu, na prática, a perspectiva de comprar moeda americana.

Altas bruscas e rápidas nas cotações do dólar produzem compreensível nervosismo. Em quadros assim não há como evitar temores de recrudescimento da inflação e a circulação de boatos sobre devedores em dólar com dificuldades para cumprir compromissos.

É desperdício, no entanto, descarregar adrenalina antes de ter uma ideia melhor da trajetória possível da taxa de câmbio. Parece claro que, se a tendência de desvalorização do real se consolidar e projetar no tempo, a política em curso terá de ser revertida.

Apoiada, no entanto, nas mesmas razões que pressionavam até recentemente pela forte valorização da taxa de câmbio – e que ainda permaneceriam atuando –, a maioria dos especialistas acredita que o real voltará a se apreciar depois de atingir algum pico cujo nível ainda não é possível determinar.

 

(Atualização do post de quarta-feira, 21/09/2011)

 

 

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