Nos ombros do Banco Central

José Paulo Kupfer

23 Novembro 2016 | 15h31

Dois eventos relevantes e interligados estão previstos para a próxima quarta-feira, 30. De acordo com os respectivos calendários, neste dia, o IBGE divulga a taxa de evolução do PIB, no terceiro trimestre, e o Banco Central anuncia a decisão do Copom, em sua reunião de 2016, sobre a taxa básica de juros.

A expectativa é que o PIB continue a afundar — e mais forte do que se previa anteriormente. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, prevê uma queda de 0,99%, no terceiro trimestre. Já o departamento econômico do Itaú-Unibanco projeta recuo de 1,1%, no mesmo período. Se confirmado o resultado, crescem as chances de que a economia acumule 3,5% negativos em 2016 e, com isso, ajude não só  a adiar a retomada em 2017 quanto a limitar o nível da recuperação.

Projeções de crescimento de 2%, no ano que vem, já foram descartadas e o próprio governo revisou sua estimativa de expansão de 1,6% para 1% — o que afetará, negativamente, a previsão orçamentária de 2017 —, em linha com a mediana das projeções captadas no Boletim Focus. Alguns dos melhores analistas de conjuntura, contudo, indicam possibilidades de crescimento mais próximo de 0,5%.

Espera-se que os diretores do BC, no encontro da próxima semana, determinem novo corte na taxa Selic — de 0,25 ponto porcentual, como projeta a maior parte dos analistas, mas podendo surpreender com uma redução de 0,5 ponto —, levando os juros básicos a fecharem 2016 em 13,75% ou 13,5% ao ano. Os espaços para novos — e talvez mais agressivos — cortes nos juros têm origem não apenas à dificuldade de reação que a economia brasileira está apresentando. São também proporcionados pelo alívio registrado nas pressões inflacionárias, sobretudo na categoria mais sensíveis dos alimentos.

Divulgado nesta quarta-feira, o IPCA-15 de novembro veio um pouco acima do de setembro, mas a alta de 0,26% apurada pelo IBGE ante o mês anterior expressou a menor elevação em novembro desde 2007. Com esse resultado, devido, principalmente, a uma pequena deflação em alimentos, a inflação acumulada no ano chegou a 6,38% — abaixo do teto da meta.

Em 12 meses, a inflação pelo IPCA-15 desacelerou de 8,27%, em outubro, para 7,64%, em novembro. Segundo projeções atualizadas, o índice fechará o ano com um avanço de 6,7%, próximo ao teto da meta e também das previsões para o IPCA cheio de 2016.

Num quadro de instabilidades externas, após a vitória de Donald Trump à Presidência, nos Estados Unidos, com continuidade, em ambiente doméstico de incertezas políticas, em função dos impactos da Lava Jato no mundo político, e de retração tanto da demanda quanto dos investimentos, em razão, entre outras, do alto endividamento de pessoas e empresas, restou, no momento, o BC e sua política de juros para minimizar os obstáculos à retomada do crescimento.