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Notícias da fome

José Paulo Kupfer

20 de agosto de 2008 | 07h30

Queridos amigos do Rotary:

Como todos vocês fazem parte de minha história, gostaria muito de compartilhar as experiências que tenho vivenciado aqui no sul da Etiópia, pra onde parti em missão durante dois meses em uma emergência nutricional.

Sempre serei imensamente grato pela generosidade de ter sido o primeiro brasileiro a receber uma Bolsa Rotary para a Paz e Resolução de Conflitos. A formação em Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos de Paris me preparou, de forma muito sólida, para entender melhor as dinâmicas da populações em sofrimento, como em guerras e crises alimentares. Hoje sou coordenador médico, no Brasil, da maior organização de saúde não governamental do mundo, e devo parte dessa conquista à formação que vocês me proporcionaram.

Os dias aqui são muito intensos e uma semana parece um mês. Faz apenas duas semanas que estou na missão, mas a sensação é de que já ficou longe, muito longe o desembarque no Aeroporto de Adis Abeba.

A missão de emergência nutricional de MSF está dividida em algumas áreas do país, basicamente aquelas onde a situação é mais preocupante. Estou na região de Kambata, onde iniciamos o atendimento às pessoas severamente desnutridas. Sabemos que alguém está severamente desnutrido quando, ao medir a circunferência do braço, a quantidade de músculo é tão pequena que na fita, chamada MUAC, a coloração fica vermelha, indicando a necessidade de ajuda urgente e risco de morte. Algumas crianças têm tanta carência de proteína que ficam edemaciadas, um outro sinal da severidade da desnutrição.

Normalmente acordo por volta das seis e meia. Tomo uma xícara do bom café etíope, como um pedaço de pão, preparo um sanduiche de ovo para o almoço e uma garrafa de água. É isso que vai me sustentar durante o dia, pois a região em que atendemos é bastante rural e isolada e não temos onde fazer refeições. Além disso, devo confessar que o apetite acaba diminuindo quando testemunhamos tanta gente se desesperando por falta de alimento. Antes de sair, passo no Centro de Estabilização, ao lado de nossa casa.

Nesse local ficam os pacientes mais graves, muitos dos quais estão tão fraquinhos que mal conseguem se alimentar. Dar alimentos normais para eles seria um risco. Na desnutrição grave, o corpo perde a capacidade de absorver e metabolizar nutrientes e fica muito mais suscetível às infecções. No Centro de Estabilização, examino os pacientes que encaminhei das clínicas onde tenho atendido. Essas clínicas são chamadas de OTPs (out reached patient) e nelas são acompanhados os pacientes severamente desnutridos, mas que conseguem se alimentar. Caso eles apresentem complicações médicas ou piorem suas condições de saúde, passam a ficar internados nos Centros de Estabilização, 24 horas em observação, por uma equipe de médicos e enfermeiros.

Os pacientes internados nos Centros de Estabilização passam por três fases até serem novamente encaminhados de volta para as OTPs. Na fase I, alimentam-se exclusivamente do leite chamado F75, que contém nutrientes na medida certa pra que eles possam, pouco a pouco, recuperar sua condição física. Na fase de transição passam a receber um leite um pouco mais enriquecido, chamado de F100. Na fase dois já alternam o leite com um preparado muito rico, chamado plumpynut, que continuarão usando mesmo depois de ir pra casa, até chegarem a um peso que consideramos seguro.

Cada vez que esse estágio é atingido e um paciente é liberado do nosso programa, dá aquela alegria difícil de explicar. No caso das crianças, o rostinho muda tanto que parece que a mãe entrou com um filho e saiu com outro. A criança desnutrida tem uma cara de velhinho, não sorri, é triste. Algumas têm a carinha inchada e até deformada pelo edema e, cada vez que isso regride, o ar entra mais fácil nos nossos pulmões. No entanto, nem sempre conseguimos ter sucesso. Algumas vezes o corpo fraquinho e suscetível a infecções perde a batalha da luta pela vida, e, mesmo com os cuidados oferecidos, perderemos algumas crianças e adultos para a fome.

Bem, mas como dizia, após o café passo no Centro de Estabilização. De lá saem todos os veículos 4X4 de MSF para as diversas áreas onde estão as OTPs. Minha função é atender aos pacientes nas OTPs e treinar as equipes de enfermeiros para que aprendam a avaliar corretamente um paciente com desnutrição. O acesso a esses locais não é fácil. Seria impossível chegar a muitos deles sem a ajuda dos nossos veículos de tração.

Uma outra questão importante é que aqui é uma região fria e montanhosa e tem chovido muito. O frio não é uma boa combinação com desnutrição, pois produz hipotermia, reduzindo excessivamente a temperatura do corpo e aumentando a gravidade da situação. Embora eu tenha circulado em diversas equipes, normalmente passo as manhãs na aldeia chamada Tunto. Nesse local trabalho com uma enfermeira irlandesa, Lilly, e uma equipe de enfermeiros etíopes.

Temos sempre conosco também uma equipe de logísticos, que é essencial. Em Tunto, especificamente, a situação é difícil. É que nessa semana abrimos ao lado da OTP nosso primeiro SFC. O SFC é o Suplementary Feeding Center. Aí acolhemos os pacientes moderadamente desnutridos, avaliados também pela circunferência do braço, peso e altura. Tanto nos OTPs quanto nos SFCs, as famílias dos pacientes com desnutrição recebem uma cota de alimentos. Isso é feito não só para prevenir que outras pessoas da família evoluam para a desnutrição, mas também para evitar que a terapia nutricional, que é dada para a criança, seja compartilhada com outras pessoas, uma vez que o paciente precisa dela toda.

Chegando à OTP, inicialmente caminho no meio das pessoas, tentando identificar algum paciente que precise de cuidados imediatos e atendimento prioritário. Uma vez identificado, este paciente será imediatamente enviado para o Centro de Estabilização em nosso veículo. Lá os esperam Assad, médico iraquiano, ou Kariana, médica sueca, e uma equipe de enfermeiros etíopes para fornecer os primeiros cuidados e interná-los. Feita essa primeira triagem, eu e Lilly, munidos da fitinha do MUAC e de um bastão para verificar a altura, iniciamos a triagem para ver os pacientes que serão ou não recebidos em nosso programa. Aqui, o duro é dizer para uma mãe, ou mesmo para uma criança, que ela não entrou no critério. É que, embora nem todos estejam desnutridos, a imensa maioria é muito pobre e precisa de comida. Dá pra sentir a ansiedade no rosto das mães enquanto verificamos o MUAC, peso e altura. Algumas choram muito. O que mais cansa num dia aqui não é o trabalho, em si, mas a potência das imagens e dos sons, que continuam reverberando, mesmo depois que a cabeça já está no travesseiro.

Passada a fase de seleção na OTP, me desloco para a sala de consulta. Toda criança admitida no programa fará exame de malária, que é endêmica na região, e receberá um bracelete que a identifica como membro do programa. Também é fornecida a vacina contra sarampo e uma dose de vitamina A para aquelas que não receberam recentemente. Se o paciente for moderado e estiver no SFC, recebe o RUTF, um alimento reforçado, e se for avaliado como severo, irá para a OTP, recebendo o Plumpynut, o alimento específico para os severamente desnutridos. Na sala de consulta é hora de examinar com cuidado cada paciente, ver se tem suspeita de outras doenças: HIV, tuberculose, febre tifóide, infecções de olhos, ouvidos ou pele, pneumonias etc. Ao diagnosticarmos alguma dessas condições, tratamos. No caso da TB ou do HIV, encaminhamos para tratamento pelo Ministério da Saúde, que tem um programa que funciona direitinho.

Os atendimentos terminam lá pelas cinco, quando, reunidos com a equipe, discutimos um pouco o que vimos durante o dia e tiro algumas dúvidas das equipes de enfermagem.

É hora de entrar na caminhonete e voltar para casa. Muitas vezes à noite ainda tem trabalho, pois é a hora em que as diversas equipes se encontram para compartilhar os problemas e desafios que aconteceram durante o dia. Desse momento surgem idéias importantes, como, por exemplo, a que surgiu após uma convulsão de um paciente na OTP; de cada médico ter uma farmácia portátil; ou de como organizar melhor as imensas filas que se têm formado pelas pessoas em busca de ajuda.

Nesta semana, em Tunto havia cerca de mil pessoas. Precisamos interromper o atendimento por medo de que se perdesse o controle e de que alguma criança pudesse ser pisoteada. Essa é uma parte bem triste: ver tantas pessoas, cujo direito à vida é igual ao de qualquer outra, mas que precisam andar por horas na chuva e se expor a tantos riscos para conseguir acesso a cuidados e comida. Fico feliz que estejamos aqui, por sermos uma mão, por mostrarmos um pouco do que está acontecendo com o povo daqui. Ao final de cada dia, a tristeza e a alegria de algumas cenas se misturam, mas há também o orgulho de trabalhar com uma organização tão comprometida.

A vida na casa é despojada. Quartos simples, sem banheiro. Banho de caneca e, no lugar do vaso sanitário, as latrinas. A falta de conforto é compensada pela boa sensação de causar impacto direto na vida das pessoas e pela alegria e união de uma ótima equipe, que, sempre que falta luz, rapidinho monta uma fogueira. Não vou saber o nome de todos, mas temos aqui quatro médicos (Eu, Claudia, Kariana e Assad), enfermeiros, logísticos, administradores, motoristas. Hoje de manhã, tentando ajudar um logístico argentino a construir uma cerca, rimos muito ao nos ver, brasileiro e argentino aqui no coração da Etiópia, debaixo da chuva, fazendo uma cerca. Há gente da Noruega, França, Bélgica, Suécia, Chile, Brasil, Argentina, Iraque, Estados Unidos, Irlanda, Inglaterra, Libéria e, é claro, muitos etíopes.

Para terminar, talvez seja importante dizer que, por curiosidade, perguntei a várias crianças o que sabiam do Brasil. Para minha surpresa, até agora não encontrei nenhuma que soubesse o que é o Brasil. Os adultos sabem por causa do futebol, mas as crianças, muitas, nunca ouviram falar do Brasil.

Não é preciso dizer que, pra tudo isso acontecer, é necessária uma tremenda operação logística. Água limpa, alimentos, medicamentos, por estradas difíceis, para tantos lugares. Tudo muito caro e difícil.

Recentemente estávamos sem saber muito bem se conseguríamos ou não ter disponível o montante de comida e de plumpynut necessários para tocar o programa. Enfrentamos um problema de produção e de dificuldade de entrega. Decidimos receber em nosso programa todos os pacientes com desnutrição severa, mas, dos moderados, só os com menos de cinco anos. Isso acontece porque não temos a garantia de que teremos comida e plumpynut para todos, por uma questão de producão e de entrega.

A maior razão apontada para a atual crise é o aumento no preço dos alimentos e também o fato de a colheita, que era esperada, não ter acontecido por questões climáticas. Pra mim essas duas razões assustam, pois ambas estão fora do controle das mãos da população, que vive num tênue equilíbrio alimentar. Isso significa dizer que, se ano que vem, os preços continuarem a subir e a colheita novamente falhar, precisamos estar preparados para responder a crises – quem sabe ? – maiores, e a estar atentos para tudo o que seja necessário.

Quando voltar ao Brasil, espero vê-los para compartilhar, ainda mais de perto, tudo o que tenho vivido na Etiópia.

Queridos, vou ficando por aqui.

Saudações rotárias e um forte abraço em todos vocês!

David

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