Nova alta dos juros põe mais pressão no ajuste fiscal

Com a política fiscal no terreno contracionista, a política monetária mais apertada tende a aumentar a necessidade de sacrifícios no ajuste das contas públicas.

José Paulo Kupfer

30 de abril de 2015 | 11h51

Havia, no mercado financeiro, nítida convergência de apostas em que a taxa básica de juros aumentaria 0,5 ponto na reunião desta quarta-feira do Comitê de Política de Monetária (Copom). A decisão que levou a taxa Selic a 13,25% ao ano e confirmou as apostas dos analistas, contudo, pode vir a enfrentar crescentes críticas. Principalmente depois das notícias de estagnação da economia americana, no primeiro trimestre, e do comunicado em tom inconclusivo emitido também nesta quarta-feira pelo Comitê de Mercado Aberto (Fomc), do Federal Reserve, sobre o momento de iniciar a retomada de alta dos juros, nos Estados Unidos.

Se confirmada a sensação de que os juros americanos ainda vão demorar para subir, a tendência de valorização do real ganha fôlego. Com isso, as dificuldades competitivas da economia brasileira se acentuarão e os horizontes de crescimento poderão ficar mais distantes. Ao mesmo tempo, com juros mais altos, a dívida pública será mais pressionada e, no fim do processo, o objetivo de estabilizar a relação dívida/PIB exigirá maiores doses de sacrifício da política fiscal.

Do ponto de vista do combate à inflação, também não é certo o efeito dessa elevação dos juros, a não ser pelo lado da valorização cambial. Seus impactos adversos nas contas externas, contudo, ao constranger os saldos comerciais e potencializar os déficits em transações correntes, já acima de 4% do PIB, não podem ser desprezados.

As pressões inflacionárias do momento não mais se devem a movimentos de demanda, sobretudo no consumo, mas aos impactos dos tarifaços já implementados e devidamente absorvidos pelos índices de preços. Assim, a política monetária de aperto, nesta fase do ajuste da economia, opera para tornar mais pesada – e recessiva – a tarefa da política fiscal.