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Novo Copom: sai o “coponês” e ficam as dúvidas de sempre sobre os próximos passos

José Paulo Kupfer

20 Julho 2016 | 19h30

Como previsto, o novo Comitê de Política Monetária (Copom) manteve, em julho, a taxa de juros básicas em 14,25% ao ano. Trata-se da mais longa série com a taxa Selic inalterada desde a adoção do sistema de metas de inflação, em 1999. Os juros básicos estão no mesmo lugar há oito encontros do Copom, desde 29 de julho do ano passado, quase um ano.

Também como previsto, o novo Copom, agora presidido pelo economista Ilan Goldfajn e com quatro novos integrantes entre os nove que formam o colegiado, mudou a forma de comunicação da decisão. O comunicado divulgado ao final da reunião é mais extenso e escrito em linguagem mais simples e direta do que a tradição consolidada pelos comunicados do Copom ao longo dos últimos 17 anos.

Com jeito de antecipação de parte da ata a ser divulgada também mais cedo — na terça-feira seguinte ao Copom e não na quinta — o texto desta quarta-feira somou 2404 caracteres com espaço —1.730 a mais do que no anterior —, em 375 palavras — mais do triplo do comunicado de junho — e 11 parágrafos (contra 3 do outro). O tradicional “coponês” — o idioma peculiar dos comunicados do Copom — deu, de fato, lugar ao português. Mas o economês velho de guerra, que nunca foi abandonado no estilo dos comunicados anteriores, está lá, vigoroso como sempre.

Para informar, por exemplo, que a recessão, expressa na baixa demanda e em instalações sem uso, poderia ajudar a aliviar mais rápido as altas de preços, o novo Copom não escapa do economês. E registra que “o nível de ociosidade na economia pode produzir desinflação mais rápida do que a refletida nas projeções do Copom”. Do mesmo modo, se refere ao ambiente externo como “desafiador”, quando talvez fosse o caso de, valendo-se do português mais direto, reconhecer que a economia global continua com muitas incertezas e enfrentando dificuldades.

Naquilo que seria mais substantivo — ou seja, as indicações de seus movimentos futuros —, o novo Copom repetiu, literalmente, o velho Copom. “Tomados em conjunto, o cenário básico e o atual balanço de riscos indicam não haver espaço para flexibilização da política monetária”. Se fosse em português — e não nesse escorreito “coponês” —, o comunicado não deveria dizer que ainda não seria possível começar um ciclo de cortes de juros básicos, como, ansiosamente, o mercado aguarda?

No fim, as mudanças, elogiáveis, serviram para deixar tudo como estava. Depois da publicação do comunicado, os analistas continuarão divergindo se a redução nos juros começará em agosto ou em outubro — quem sabe, não acabe ficando para 2017.