Novos rounds na luta pela condução da economia

José Paulo Kupfer

26 de maio de 2008 | 19h35

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ocupou o espaço folgado do feriadão no noticiário econômico, com uma boa entrevista dos jornalistas Ivanir Bortot e Kelly Oliveira, da Agência Brasil. Nas respostas, Meirelles se esforçou para reafirmar que as melhores coisas que andam ocorrendo na economia brasileira são fruto da estabilidade monetária, perseguida com denodada ortodoxia pela instituição que ele preside.

Ficamos sabendo, por exemplo, que, ao contrário do que se imagina, juros altos e, mais do que isso, tendência de aumento nos juros, não sinalizam que o custo dos investimentos e da atividade empresarial cotidiana vai ficar mais alto. No entender de Meirelles, juros altos contribuem para reforçar a confiança dos empresários na capacidade de o Banco Central garantir a manutenção da estabilidade monetária – e é esta estabilidade que tem levado à expansão dos investimentos. A lógica do raciocínio permite indagar: se quanto maior os juros, mais a estabilidade (na verdade, a deflação) da moeda fica garantida, pelo sufocamento da demanda, o que estamos esperando para triplicar a taxa básica ou decuplicá-la logo de uma vez?

Parece óbvio, mas talvez não ao presidente do BC, que, na economia, a estabilidade dos cemitérios não interessa ao empresário. Ninguém investe num ambiente apenas estável. O empresário investe, sim, de preferência em ambiente de estabilidade, mas o crescimento econômico – e a perspectiva de sua manutenção – é a condição necessária. Para Meirelles, de todo modo, está tudo ok, porque, segundo ele, também o crescimento deriva da política monetária rigorosa executada pelo BC. “A não hesitação do Banco Central de manter a inflação na meta é que garante o crescimento”, afirmou na entrevista. Se puder, o presidente do BC fica com o título de único pai do “grau de investimento”, conferido pela S&P.

A entrevista de Meirelles, sem razão que a justificasse para o momento em que foi publicada, tem tudo para ser parte das escaramuças a que se lançaram, ele e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelos louros do bom momento que vive a economia e, numa briga mais séria e mais dura, pelo controle da condução da política econômica. Enquanto o presidente Lula, fazendo valer o estilo que desenvolveu como líder sindical, pende para um lado e para o outro, sem permitir uma definição clara de suas preferências, Mantega e Meirelles vão à luta na mídia.

Meirelles leva uma vantagem inicial porque conta com mais simpatia na mídia e seus correligionários, a maioria economistas-financistas, não por coincidência, ocupam mais espaços na imprensa. O presidente do Banco Central é incansável no contato de bastidores com jornalistas, para os quais costuma telefonar, sugerindo temas e defendendo argumentos. E os economistas-financistas estão sempre prontos a desqualificar as propostas de Mantega e o próprio ministro da Fazenda. O tiroteio pesado contra o fundo soberano é só o último exemplo da estratégia utilizada.

Embora não corresponda à realidade, tem sido relativamente bem sucedida a estratégia de grudar em Mantega uma imagem de sujeito ingênuo e profissional fraco na formulação econômica. De caráter ideológico, os ataques a ele revelam a arrogância e a falta de educação de gente que se acha muito inteligente e preparada, embora não raro, quando no governo, como é caso de alguns, tenha produzido monumentais desastres econômicos.

Velho discurso, propostas que se revelam sem solidez técnica ou com poucos fundamentos, estes são os termos das “críticas” a Mantega. Muito adjetivo e pouco conteúdo. Não é preciso citar nomes, mas, entre os críticos insistentes do atual ministro da Fazenda, há ex-autoridades cuja atuação, na condução da economia, foi muito mais nociva ao País do que possa, eventualmente ter sido, até aqui, a de Mantega. É ridículo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.