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O “transtorno do apocalipse now” e a realidade

José Paulo Kupfer

21 de outubro de 2009 | 16h04

As reações iniciais à taxação de IOF nos capitais externos que ingressam no País para aplicações em renda fixa e bolsa de valores, como era de se esperar, foram descabeladas. Uma conhecida síndrome, que poderíamos chamar de “transtorno do apocalipse now” (TAN), varreu as análises dos analistas de sempre.

Como esses, na imensa maioria, além de economistas titulados, são  operadores no mercado financeiro, não dá para saber o que realmente eles analisavam: se as consequências das medidas para a economia ou para seus bolsos e de seus clientes.

As análises desses entes anfíbios também são anfíbias. Segundo nos informaram, a taxação do IOF, de um lado, promoverá grandes estragos na economia, mas, de outro, não terá força para inverter a tendência dos mercados. Como uma coisa pode ocorrer ao mesmo tempo em que a outra é que não dá para entender.

No momento em que escrevo, uma irrelevância – mas irrelevância muito interessada – toma conta das manchetes dos sites noticiosos. Trata-se do cálculo do valor de mercado na Bolsa de São Paulo, na terça-feira, primeiro dia de vigência da nova taxação do IOF sobre capitais externos.

O Ibovespa recuou quase 3% e as empresas listadas em Bolsa, segundo calculou a Economática, especializada nisso, “perderam” US$ 55 bilhões em valor de mercado – ou, como a empresa informou, no press release, para facilitar a comparação, as empresas listadas na Bolsa “perderam” uma AmBev inteira.

Neste mesmo momento, 15h30 da quarta-feira, a Bolsa está em alta forte – de 2,5%. Significa que as empresas listadas em Bolsa “ganharam” cerca de US$ 50 bilhões em valor de mercado – quase uma AmBev inteira de “lucro”. Será que o cálculo dos “lucros” vai aparecer com tanto destaque?

Não se sabe como os pregões fecharão hoje – no mercado cambial, neste momento, a cotação do dólar voltou a cair e o Banco Central até promove um leilão de compra da moeda. Não se sabe nem mesmo qual será a tendência, depois dos primeiros ajustes nos pregões. Mas, como era de se esperar, o cheiro é o de que a simples e isolada volta do IOF sobre os capitais ingressantes não será suficiente para reverter ou, pelo menos, estancar os movimentos de alta no mercado de ações e de queda do dólar.

De todo modo, a vida real deu um troco rápido na turma que, quando seus interesses ou convicções são contrariados, é acometida de surtos de TAN. O IOF não será, obviamente, o fim do mundo. Talvez nem mesmo seja o começo de um outro, cada vez mais necessário.

* * *

O relevante nessa coisarada toda é a briga da Fazenda com o Banco Central. Não é nem um pouco novidade na história da condução da economia brasileira, mas, novamente, enquanto um puxa, o outro estica. Assim, a política econômica vai em frente com mais ineficiências do que o necessário.

O fato é que o BC emudeceu desde que a Fazenda soltou os primeiros balões de ensaio do IOF e o presidente da instituição, o geralmente falante Henrique Meirelles, sumiu do mapa. Seu silêncio passa a mensagem óbvia de que ele está dizendo que essa suposta “barbeiragem” do IOF não é com ele.

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