Renda extra

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O câmbio e a especialização do atraso

José Paulo Kupfer

07 de agosto de 2009 | 16h47

Bastou a conjuntura global acalmar para o dólar engatar, no mercado cambial brasileiro, uma trajetória de queda que já faz a cotação se aproximar do nível em que estava antes da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. A moeda americana está hoje na casa de R$ 1,82 (um dia antes de o Lehman sucumbir, valia R$ 1,78). Desde o início do ano, já perdeu 22% em relação ao real. Já há quem preveja, como os analistas do Bank of America Merrill Lynch, que o dólar encerrará 2009 valendo R$ 1,70, ou até menos.

Os exportadores, que já sofrem com a retração do mercado internacional em decorrência da crise, elevam a cada dia o tom das reclamações. Não à toa. As vendas de produtos manufaturados ao exterior, os mais dependentes do câmbio, despencaram 31% de janeiro a julho.

É um tombo enorme, que afeta não só o superávit da balança comercial, mas, sobretudo, o perfil das exportações. Diferentemente do vem ocorrendo depois da crise, com a ascensão das commodities na pauta de exportações físicas, é mais do que desejável o predomínio das exportações de manufaturas, mercadorias com maior valor agregado.

O diretor de Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Giannetti da Fonseca, chegou a pedir a adoção de um controle de capitais. Posição, aliás, que ainda não foi endossada pela entidade. Outros acham que já estaria na hora de, pelo menos, sinalizar com algumas dificuldades à circulação desses capitais, com uma elevação na alíquota do IOF.

Para muitos, como o próprio Giannetti, a especulação com câmbio explica grande parte dos ganhos da moeda brasileira. Embora os números do balanço de pagamentos não registrem grandes entradas de capital para aplicações em renda fixa, o fluxo de recursos estrangeiros para o mercado de ações explodiu: foram R$ 12 bilhões entre janeiro e o fim de julho, recorde para o período.

Sugestões para resolver o problema à parte, o fato é que muitas variáveis “reais” apontam para um fortalecimento da moeda brasileira. A balança comercial, por exemplo, tem batido, sistematicamente, as previsões de analistas (até a última semana de julho, o saldo positivo no ano estava em US$ 16,9 bilhões). Outro item que tem ficado acima do esperado é o investimento estrangeiro direto, que somou US$ 13 bilhões no primeiro semestre.

Antes de tudo, porém, parece claro que o desajuste da taxa básica de juros, apesar dos cortes que vem sofrendo, continua contribuindo para um aporte de dólares acima do desejável. Não adianta invocar o fato de que os juros Selic já caíram 5 pontos, nos últimos sete meses, e que se encontram no nível mais baixo desde que o sistema de metas de inflação foi implantado. O que importa é o diferencial de taxas e este, com a derrubada profunda e generalizada dos juros nas economias principais, é suficientemente atraente a capitais de todos os tipos – especulativos ou nem tanto.

O impacto negativo da valorização cambial nos saldos comerciais tem sido camuflado. De um lado, pela melhora gradativa nas exportações de commodities, cujos preços vão subindo à medida em que o dólar se desvaloriza diante das demais moedas fortes. De outro, pela ainda tímida recuperação das importações, que expressa o fato de que a economia desceu de elevador, no auge da crise, e agora empreende a volta pela escada.

Chama a atenção a pouca preocupação dos economistas de linha ortodoxa com o futuro das contas externas, que, com o real cada vez mais valorizado, parecem percorrer uma trajetória de baixa sustentação. Será que eles, que tanto acusam os outros de defenderem “visões econômicas atrasadas”, estão sendo modernos ao defender ou, pelo menos, se conformar com a especialização das exportações brasileiras no segmento de commodities, cujas cotações são tão sujeitas às instabilidades de mercado? 

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