O câmbio na gangorra

José Paulo Kupfer

09 de fevereiro de 2010 | 16h46

A nova onda de desvalorização do real, que fez o dólar saltar de R$ 1,70 para R$ 1,90 em questão de três semanas, já leva muita gente a apelar para o Banco Central. Querem que a autoridade monetária saque sua arma letal – as reservas cambiais de mais de US$ 240 bilhões – para evitar que a moeda americana mantenha o atual ritmo de escalada. O argumento é o de que quanto mais alto o dólar, maior o risco de inflação.

Nas entrelinhas, porém, não é fácil esconder que muitos dos que vêm a público com o pedido estão a fim de especular. Uma das regras básicas do mercado financeiro diz que ambientes instáveis são férteis para quem sabe fazer o jogo da especulação. É difícil, mas os que acertam ganham montanhas de dinheiro.

Acontece que esse é, geralmente, o mais falso dos dilemas. Para a economia, mais do que um câmbio valorizado ou desvalorizado, o pior é a volatilidade da taxa. E nisso de andar na gangorra das cotações, a política cambial brasileira é campeã mundial.

Em 2008, auge da crise global, o real foi a moeda que mais se desvalorizou em relação ao dólar. Em 2009, foi o oposto: o real foi o líder dos ganhos, o que ajudou o Índice Bovespa a ter o maior avanço em dólar no mundo no ano (mais de 110%). Neste início de 2010, em meio à tensão com a saúde fiscal de alguns países europeus, de novo o real é a moeda que está no topo da lista das que mais perdem para o dólar.

Imagine o que isso significa para quem trabalha com comércio exterior, seja importação ou exportação. Imagine a dificuldade de uma empresa que precisa fazer seu planejamento para o ano, incluindo o orçamento de gastos e receitas em moeda estrangeira.

 É fácil imaginar: o que você faria se estivesse planejando uma viagem de férias ao exterior, em julho? Compraria dólares ou euros? Agora ou mais tarde? Concentro as compras no cartão sem saber quanto o câmbio vai valer na hora da cobrança?

Essas dúvidas são as mesmíssimas das empresas exportadoras e importadoras. A volatilidade do câmbio resulta em dificuldades para fechar contratos, negociar financiamentos, definir hedgings…

Faltam explicações convincentes para o “fenômeno”. Uma das mais corriqueiras, mas também preguiçosa, é que o real, quando cai, cai mais porque, quando subiu, subiu mais – e vice-versa. Outra, igualmente corriqueira e preguiçosa, é que câmbio flutuante é para… flutuar. Será que alguém consegue acreditar nisso?

O real, para capitais voadores, é uma paixão recente e compreensível. Além dos juros atraentes, o Brasil oferece facilidades na entrada e, mais ainda, na saída do dinheiro. Um mercado não tão atraente, é verdade, quanto o chinês, mas sem as incertezas do concorrente. A China opera com câmbio fixo, dispõe de reservas trilionárias para afogar os renitentes e não tem qualquer cerimônia para, se for o caso, baixar normas de controle a qualquer momento, sem aviso prévio. Apostar no real é um negócio mais seguro.

Atuar não para inverter tendências, mas apenas para suavizar os movimentos do mercado é o que o Banco Central brasileiro diz ser seu objetivo. O resultado não tem sido dos melhores. Mas, enfrentar aplicadores que entram aos borbotões e saem de enxurrada apenas com as armas monetárias mais convencionais, convenhamos, é dureza.

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