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A crise na Receita Federal: polítização demais, transparência de menos

José Paulo Kupfer

26 de agosto de 2009 | 19h40

Está sobrando politização e faltando transparência nessa crise na Receita Federal. Não há surpresa nisso. Quando baixos interesses políticos contaminam tanto a ação dos governos quanto de suas oposições, a transparência é sempre a primeira vítima.

Quem não se deixar envolver pelos golpes sujos e as jogadas para a arquibancada de parte a parte, perceberá que, em meio à chuva de factóides acolhidos pela mídia, faltam explicações convincentes dos fatos. Tentar entender os acontecimentos pelo noticiário dos maiores jornais é, além de uma inutilidade, autêntica tortura mental. No fogo cruzado das versões, a única certeza é que se trata de uma mentirada geral.

Foi assim, nesse ambiente de manipulação e interesses políticos pouco claros, que transformaram, em menos de um ano, “os sindicalistas que aparelharam a Receita Federal” nos “Doze heróis do Fisco”. O detalhe é que são os mesmos funcionários graduados da Receita, que chegaram à alta direção do órgão com a ex-secretária Lina Vieira e que saíram com ela. Seria muita ingenuidade indagar das razões de mudança tão súbita na qualificação das mesmas pessoas?

Os 12 que soltaram um manifesto declarando preocupação com ingerências políticas na Receita, demitiram-se dos cargos de confiança depois que Lina, defenestrada – sabe-se lá se pelo ministro Mantega, a quem era subordinada, ou pelo presidente Lula, a quem Mantega se subordina -, com cenas explícitas de assassinato de reputação, impróprias para menores e pessoas decentes, decidiu se defender, atirando em seus algozes.

Ás insinuações de que Lina fora demitida porque desestruturara a Receita e, por incompetência, deixara a arrecadação cair – numa época em que só por milagre, em razão da forte queda na atividade econômica, a arrecadação passaria incólume – a ex-secretária retrucou com a acusação de que fora sacada por mudar o foco da fiscalização, tirando-o dos pequenos contribuintes e mirando os grandes. O governo – ora, ora – nega a acusação.

Impossível também saber o que há de verdade na troca de tiros. Até porque, segundo consta, mas, igualmente, carece de confirmação indiscutível, a confusão começou quando a ex-secretária resolveu se meter com a Petrobras, glosando uma manobra fiscal ultra-controvertida, levada a efeito pela empresa, que possibilitou o adiamento do recolhimento de R$ 4 bilhões em impostos.

Confusão coroada com o fantástico encontro que houve ou não houve, depende do gosto do freguês, da ex-secretária da Receita com a ministra e pré-candidata Dilma Rousseff. Detalhe no mínimo escandaloso: o governo confessar, oficialmente, que não pode confirmar, por falta de registro documental de qualquer espécie, a visita de alguém a algum gabinete da sua própria sede. 

Nesta quarta-feira, uma pandemia de pedidos de demissão varreu a Receita. O ministro Mantega, mesmo assim, insiste que está tudo normal. É mais do que óbvio que não está. Enquanto prevalecer no governo a estratégia do avestruz, a crise não será superada. Uma beleza para os interessados em botar fogo no circo de Lula.

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