O caso Isabella e o FMI

José Paulo Kupfer

21 de abril de 2008 | 16h42

Haveria algum ponto de convergência entre o caso da menina Isabella, assassinada em São Paulo, segundo a Polícia, pelo pai e pela madrasta, e a reação de autoridades dos organismos multilaterais globais, como o FMI, o Banco Mundial e a ONU, em relação ao recente recrudescimento dos distúrbios por fome no mundo? A resposta a essa indagação, aparentemente sem sentido, é sim.

São ambas terríveis tragédias humanas. Mas, além disso, assim como a fome no mundo não é um fenômeno novo – nova é a “consciência” dos “FMIs” para o problema -, casos como a da inocente Isabella Nardoni não são únicos ou mesmo raros – como a comoção pública e a cobertura da imprensa poderiam fazer concluir. Infelizmente, são corriqueiros.

O número de pessoas passando fome ou em situação de insegurança alimentar, no mundo, andava estabilizado em vergonhosos 800 milhões há pelo menos três décadas, período em que a produção de alimentos tornou-se suficiente para alimentar, decentemente, toda a população do planeta. Esse exército de famintos, correspondente a nada menos de um sexto da população mundial, não tirou, durante todo esse tempo, o sono de quase ninguém.

No Brasil, faltam estatísticas estruturadas, mas, com os registros existentes é possível saber que o número de crianças espancadas em casa e, eventualmente, mortas ultrapassa em muito a classificação de escandaloso. Só de crianças pequenas, até cinco ou seis anos, são possivelmente, em média, dois assassinatos por dia, acima de 600 por ano.

O pesquisador brasileiro Wilmes Roberto Teixeira, professor de medicina legal de prestígio internacional, vai mais longe. Ele estima, de acordo com o que publicou o jornal “O Estado de S. Paulo”, em sua edição de hoje, 21 de abril, que cerca de meio milhão de crianças menores de quatro anos são espancadas a cada ano. Dessas, 40 mil sofrem agressões graves e quatro mil morrem.

Pesquisadores brasileiros afirmam que o número de homicídios de crianças cresce no mesmo ritmo do de adultos. Especialistas internacionais localizam o recrudescinento da fome no mundo num aumento nos custos de produção, associado a uma redução dos estoques de alimentos, por competição com bioenergia, secas em áreas tradicionais de cultivo e inexistência de estoques reguladores – este último por confiança exagerada na capacidade de suprimento pelos mecanismos exclusivos de mercado. Nos dois casos, trata-se de um processo de deterioração que não começou hoje.

É de se perguntar, então, tanto no caso da fome como no da violência extrema contra crianças no Brasil, por que só agora tanta comoção? E, em seguida, tentar responder se, depois da atual comoção, é realista esperar menos fome e menos crianças espancadas e assassinadas.

Enquanto não ficar claro que, no caso da fome, a comoção do FMI é algo que vai além do jogo de interesses econômicos, e que, no caso de Isabella, a comoção ultrapassa o nível da catarse de massas, fermentada pelos meios de comunicação, não dá para ser otimista.

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