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O Copom e a arte

José Paulo Kupfer

10 de dezembro de 2008 | 16h07

Quando tudo está indo relativamente bem, o grau de acerto das previsões econômicas é baixo. Parece óbvio, então, que, quando o cenário está absolutamente incerto, a probabilidade de erro aumente, no mínimo, na mesma proporção. Por isso, em um momento de crise como o atual, a desconfiança sobre a bola de cristal dos analistas de mercado deve ser redobrada.
 
Desconfie quando alguém projeta recessão. Desconfie, também, quando alguém nega veementemente essa possibilidade. Fique com o pé atrás quando alguém diz que o investimento estrangeiro vai despencar em 2009. E o mantenha ali, bem escondidinho, quando outro especialista der como certo que o Brasil terá saldo comercial zero no ano que vem.
 
Esse é um resumo do que o Leandro Modé me passou, depois de uma conversa dele com o professor Simão Silber, da FEA/USP. O economista Simão Silber é um daqueles casos, relativamente raros, de profissional que alia conhecimento sólido com perfil low profile. Ele explicou ao Leandro que, em situações como a de hoje, ocorre um fenômeno conhecido como “quebra estrutural”, que se caracteriza por mudanças abruptas de cenário. “Quando um índice de bolsa cai 50% em um período curto (como ocorreu neste ano com o Ibovespa, por exemplo), há uma quebra estrutural”, diz o economista.
 
Nesses momentos, lembra Simão, os modelos matemáticos usados pelos analistas para “prever” o futuro revelam-se inservíveis. Em tal ambiente, passa a valer, mais do que nunca, a intuição, o conhecimento e, sobretudo, a experiência de cada um. Nos calorosos debates sobre o rumo da política monetária no Brasil, o ex-ministro Delfim Netto costuma dizer que o Banco Central precisa mais de arte do que de ciência. O BC, sem dúvida, precisa muito de arte, mas todos os que se propõem a enfrentar os desafios da incerteza na economia com ferramentas científicas não podem prescindir dela (veja aqui, a propósito, um curioso texto do ex-ministro, a esse respeito). 
 
Quem se agarra cegamente aos modelos vem dando uma bola fora atrás da outra. Quando o dólar ainda iniciava a recente disparada ante o real, muitos saíram gritando em defesa de uma nova alta do juro básico já na reunião de outubro do Comitê de Política Monetária (Copom). Afinal, os modelos mostravam que, para cada 10% de valorização da moeda americana, havia um impacto de um ponto porcentual nos índices de preços ao consumidor.
 
Poucos atentaram para algumas atenuantes deste momento: altos estoques (o que pode, na pior das hipóteses, adiar o repasse aos preços), commodities despencando lá fora, crédito escasso e rápida propagação das informações sobre a crise, o que deixou os consumidores imediatamente mais cautelosos. Isso sem falar no famoso “produto potencial” – aquela prestidigitação econométrica que decretou a inviabilidade de uma expansão da economia acima de 3,5%. Como explicar um crescimento acima de 6% sem altas nos juros e sem descontrole inflacionário?

A teoria convencional ensina que, em regimes de câmbio flutuante, há comunicação direta entre taxas de juros e de câmbio. Juros altos induzem a um câmbio mais valorizado e vice-versa. Uma das razões para que isso ocorra é que, convencionalmente, juros altos atraem recursos em moeda estrangeira. Mas, numa hora em que a aversão a riscos parece infinitamente inelástica, haveria alguma taxa de juros suficientemente alta para fazer o serviço?

Daqui a pouco, no começo da noite, o BC e o seu Comitê de Política Monetária (Copom) vão mostrar se além das ferramentas convencionais de previsão, recorreram à arte de que todo economista digno do nome tem de se valer, para operar a ciência social (e política) – não uma ciência exata – que ensinaram (ou deveriam ter ensinado) a ele. No caso, a arte está em promover qualquer corte nos juros, sinalizando aos agentes econômicos que terão respaldo para empreender e consumir.

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