O crédito resiste

José Paulo Kupfer

30 de maio de 2011 | 20h47

De abril do ano passado a abril deste ano, a taxa básica de juros (Selic) subiu 3,25 pontos porcentuais, de 8,75% para os atuais 12% ao ano. No fim de 2010, o governo adotou medidas macroprudenciais, com objetivo de esfriar alguns segmentos do mercado de crédito, como o de veículos. Além disso, o Banco Central (BC) elevou o recolhimento dos compulsórios dos bancos, reduzindo os recursos disponíveis para empréstimos e encarecendo os financiamentos.

Apesar dessas medida, o crédito no Brasil desacelera em ritmo lento. Em abril, o estoque de empréstimos avançou 1,3% na comparação com março. Em 12 meses, a expansão chega a 21%. É uma velocidade que contraria o que o próprio BC considera saudável no atual momento do País: algo entre 10% e 15% ao ano.

Como a crise de 2008 mostrou, um dos maiores riscos a que uma economia hoje se expõe localiza-se justamente o mercado de crédito. O caso brasileiro é ainda menos o da formação de bolhas e mais do crédito como combustível para manter a demanda aquecida.

Mas, de todo modo, uma ação macroprudencial mais firme, no caso do crédito, faz todo o sentido. Primeiro porque o crédito, no Brasil, vem se expandido em ritmo quatro ou cinco vezes acima da alta do PIB desde 2004. E, depois, se a economia desacelerar o ritmo de expansão, atendendo aos objetivos do governo, se o crédito continuar quente, a ameaça de calotes se torna mais concreta.

Se as medidas de contenção do crédito vão na direção certa, elas parecem tímidas para as necessidades. O problema é que não se sabe o que poderia acontecer com alguns bancos fornecedores de crédito, caso o governo fechasse a torneira com mais força. Faz sentido imaginar que algumas bicicletas derrapariam se parassem de pedalar abruptamente. É possível que medidas macroprudenciais reforçadas não tenham de se dirigir apenas para o lado do tomador.

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