O debate dos juros básicos

José Paulo Kupfer

21 de julho de 2010 | 14h56

Os anúncios das decisões do Copom, nas noites de oito quartas-feiras de cada ano, já se tornaram uma tradição pop do debate da economia no Brasil. Hoje é dia.

Seguem duas contribuições de leitores do blog para o debate dos juros básicos:

  Por Soulman

Em maio, a DPMFi total cresceu 1,8%, em relação a abril, para R$ 2.193,0 bilhões, dos quais R$ 673,43 estão em poder do BC e o saldo em poder do público. A parcela total em LFT, que está indexada à Selic, soma R$ 793.86 bilhões.

Desde os últimos reajustes, a partir dos 8,75%, o Tesouro passou a gastar perto de R$ UM BILHÃO adicionais mensalmente, só com os selicados. Presumindo que não haja mais reajustes, até o final do ano serão SEIS BI adicionais.

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Refletindo sobre o processo de “investimento” estrangeiro, um interessado que queira aproveitar a rentabilidade momentânea, registra-se no BC e transfere as divisas para cá. O BC, em conjunto com o Tesouro, emite reais para as adquirir, e os retira imediatamente do mercado leiloando novas LFT (processo conhecido como esterilização). O interessado compra os títulos e, conforme vai recebendo os rendimentos, os transfere para sua conta no exterior.

Enquanto o BC intervier comprando na mesma velocidade que entra esse capital a pressão sobre o câmbio é pequena, se não mínima. Mas se, no momento que satisfez o déficit em conta corrente, o BC encerra as compras, quem vai adquirir o excedente de divisas interessadas em ingressar no país? Haverá pressão sobre o câmbio que acaba valorizando o real. Como o BC não as compra, não emite reais e, portanto, não há necessidade de “enxugá-las” com emissão de LFT. Então, se não há títulos disponíveis, quem se arriscaria vender moeda estrangeira com taxa em queda, se não tem onde investir? Ainda que haja reais da poupança interna dispostos a comprá-la mais barata, p. ex. os importadores, esses recursos migrariam para outro ativo financeiro que sofreria pressão pela oferta de dinheiro que poderia depreciar o rendimento respectivo.

A conclusão parece óbvia: como os dados do fluxo de caixa e do capital volátil registrado só o BC tem em primeira mão, ele detém o poder de regular esse fluxo, inclusive desestimulando sua entrada, não intervindo na ponta compradora ou na vendedora, na desvalorização do real, evitando sua saída.

Como a moeda estrangeira adquirida pelo BC incorpora-se às reservas externas, quando houver o processo inverso, sua venda para dar liquidez à saída do capital que ingressou, o BC resgata os títulos, paga com os reais que “enxugou” e os recebe de volta quando vende as divisas para o estrangeiro liquidar sua posição.
Se essa política de cobrir o déficit de conta corrente com capital volátil e a intervenção do BC persistir mesmo com a importação crescente, mesmo ainda havendo superávit comercial, há o risco de uma crise cambial, a menos que as reservas sejam suficientes para dar liquidez ao capital volátil que sai e cubra o saldo acumulado do déficit da conta corrente quando o processo atingir seu ponto crítico – como não pesquisei ainda a conta corrente e não dá para saber quanto do IED é realmente capital volátil, cruzo os dedos e torço para que já não tenhamos chegado a essa situação crítica.

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Teoria de conspiração: se os bancos juntos não repassarem 0,01% aos investidores em LFT, dos recentes 1,5% de reajuste na Selic, faturam R$ 318 milhões em 4 meses, suficientes para dar a sua modesta contribuição às campanhas de eleições gerais de 2010 – só as dos presidenciáveis deverão superar R$ 300 milhões, correto?

Se não repassarem 0,02%, não conseguiriam cobrir as campanhas de todos os candidatos inclusive governadores, senadores e deputados, sejam lá de que partido forem?
Ok, então 0,03%…

Por Jr.

Soulman,

Muito esclarecedor seu comentário. A sua estimativa de acréscimo adicional nas despesas com aumento de juros são próximos dos números que citei anteriormente: segundo o seu cálculo, o Tesouro gasta aproximadamente 8 bilhões de dólares anualizados a mais a cada aumento de 1% na taxa SELIC (neste caso, somente com os títulos selicados).

Os dólares que entram vão as reservas cambiais. Vale a pena aumentar as reservas cambiais brasileiras pagando juros de 11 % ao ano, enquanto a maior parte dessas mesmas reservas cambiais (que somam mais de 200 bilhões) são remuneradas com os juros próximos de zero pagos pelo Tesouro Norte americano ?

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