O "deus-mercado" e seus intérpretes

José Paulo Kupfer

10 de março de 2008 | 07h30

Há quem considere o mercado como uma religião. Faz algum sentido, na medida em que, entre outras manifestações características, seus sacerdotes estão sempre acenando com um futuro paradisíaco, embora jamais digam quando virá, ao mesmo tempo em que recomendam paciência e sacrifícios no presente – mas não para todos.

Além disso, como nas religiões em geral, a do “deus-mercado” também tem seus mantras e suas práticas iniciáticas. Do ponto de vista da falta de clareza, não há muita diferença entre as enigmáticas falas dos oráculos da Grécia Antiga ou os cifrados textos sagrados de muitas religiões e as atas dos comitês de política monetária dos bancos centrais ou os discursos das autoridades da área.

A partir do momento em que se convencionou que o sucesso das políticas econômicas dependia da coordenação de expectativas a cargo dos Bancos Centrais, estranhos códigos de comunicação passaram a induzir o processo decisório não só no segmento financeiro do mundo econômico, mas também no seu lado real.

Era de se supor que tanto melhor se faria a tal coordenação de expectativas quanto mais clara fosse a comunicação das autoridades com os agentes do mercado. Mas não é isso o que ocorre. Os comunicados e as declarações das autoridades monetárias – os textos sagrados da religião do mercado – são sempre ambíguos, exigindo interpretações e, conseqüentemente, intérpretes bem treinados na decifração das mensagens.

A nota que resumiu a decisão de manter os juros básicos inalterados em 11,25% ao ano, divulgada no começo da noite da quarta-feira, 5 de março, não foge ao padrão. O comunicado divulgado pela assessoria de imprensa do BC informa o distinto público de que o Copom “irá monitorar atentamente a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”.

Um transeunte que passasse e deparasse com tal mensagem, imaginaria que os sábios do BC não teriam nada a fazer a não ser declarar, solenemente, um amontoado de obviedades. Afinal, seria absolutamente surpreendente que um BC confessasse cumprir sua missão de modo desatento ou que defina seus passos futuros sem levar em conta a evolução do cenário macroeconômico.

Mas, para os intérpretes das atas e comunicados do BC, por trás da aparente obviedade, há sinais inequívocos de que, para o Copom, a coisa está piorando e, portanto, nem pensar em cortes futuros nos juros básicos. Primeiro porque o Copom avisou que não mais “acompanhará”, como vinha fazendo nos comunicados anteriores, a evolução do cenário macro, mas “monitorará” – o que, puxa vida, não é nada diferente de acompanhar, mas empresta um ar de maior preocupação para o acompanhamento.

Mais: o monitoramento não será um acompanhamento puro e simples qualquer. Será “atento”. Ou seja, segundo os intérpretes, olho vivo porque a inflação, que está recuando, pode voltar a sofrer pressões altistas. Quem achar, portanto, que os juros podem cair, ainda mais que a distância entre eles e os americanos, de referência, só faz aumentar, pode tirar o cavalinho da chuva.

Seria apenas ridículo e cômico, se não dificultasse o deslanche do crescimento econômico, em troco de teorias de comprovação incerta.

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