O emprego ainda resiste

José Paulo Kupfer

24 de novembro de 2011 | 19h39

A economia brasileira, que andou a 75 km por hora em 2010, foi, pouco a pouco, perdendo velocidade ao longo de 2011. Agora, na chegada ao fim do ano, roda a 30 km por hora. A desaceleração foi gradual e só agora os indicadores mais recentes começam a confirmar um futuro de moderação na evolução do ritmo de atividades.

O retrato do momento ainda registra picos em diferentes segmentos, mas as tendências são de reversão dessas trajetórias, a partir do momento seguinte. Períodos com essas características configuram uma casca de banana para os analistas.

A taxa de desemprego de outubro, divulgada ontem pelo IBGE, se encaixa nessa situação em que o presente aponta para um lado e o futuro próximo indica outro. Com o agravante de que, no caso específico, a leitura dos resultados, em razão de peculiaridades metodológicas, é um caminho repleto de armadilhas.

Em comparação com setembro, o desemprego de outubro, já baixo e na altura de 6%, nível em que se encontrava desde julho, caiu ainda mais, atingindo 5,8% da população ativa. É o nível mais baixo desde 2002.

O que se tem pela frente é uma perspectiva de aumento em câmera lenta do nível de desemprego. Ele deverá resistir numa faixa pouco acima de 6%, avançando mais rápido tão menos efetivas sejam as medidas de alívio que vêm sendo adotadas pelo governo.

Uma taxa de desemprego de 6% significa, para uma corrente de economistas, perigo à vista – e perigo potencializado pelos esforços antirrecessivos que o governo já vem empreendendo. Eles estimam que a taxa natural de desemprego no Brasil se situe entre 6,5% e 8%. A taxa natural de desemprego, uma construção teórica sujeita a chuvas e trovoadas metodológicas, seria aquela que não pressionaria a inflação.

O ligeiro recuo registrado na taxa de desemprego em outubro se deveu menos à absorção de novos trabalhadores ao mercado de trabalho do que a um também ligeiro avanço da população economicamente ativa, a base de referência para a definição da taxa. Na verdade, tanto a taxa de desocupação (pessoas sem trabalho, mas procurando ocupação no mês da pesquisa) quanto a de ocupação (pessoas com trabalho regular), assim como o rendimento médio e a massa de rendimento, registraram estabilidade em comparação com setembro.

No acumulado do ano até outubro, porém, o ritmo de variação de cada um desses índices continuou a desacelerar em ritmo lento. Eis aí uma indicação mais em linha com a perda de fôlego da atividade econômica em geral, agora captada por todos os indicadores específicos. Pelo andar da carruagem, é mais provável que a desaceleração se acentue do que ocorra uma reversão dessa tendência.

 

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