Coluna

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O G20 já caiu do telhado

José Paulo Kupfer

10 de novembro de 2008 | 19h32

O encontro do G-20 em São Paulo, neste fim de semana, comprovou que o redesenho da chamada arquitetura financeira global é tarefa, ao menos por ora, impossível. As demandas dos países estão longe de um consenso e vai ser preciso suar a camisa muito mais e por muito mais tempo para encontrar um denominador comum – se é que ele vai ser encontrado.

Defensora de mudanças mais radicais no sistema, a Europa usa a ambição dos emergentes por mais representatividade nos fóruns globais para pressionar os Estados Unidos. A Europa quer a criação de um organismo multilateral de supervisão, acima dos hoje existentes, com capacidade para regular todo o sistema financeiro.

O governo americano diz que topa algumas alterações, mas não desce aos detalhes e passa longe das pretensões européias, vocalizadas também por emergentes. No fundo, os americanos não querem largar o osso. Tanto que não é nada certo que, apesar do discurso mais flexível de Barack Obama, os EUA se disponham, no novo governo, a aceitar uma supervisão mais compartilhada do sistema financeiro.

Obama, na verdade, tem falado pouco sobre o assunto e o Congresso americano eleito, fortemente protecionista, poderá ser um empecilho, não a uma maior regulação dos mercados, mas a uma maior distribuição dos poderes de supervisão global. Por essas e outras, a reunião de cúpula do G20, sábado, em Washington, subiu no telhado e está dando uma sensação de um convescote de luxo para as despedidas de George Bush. Obama, o protagonista daqui para frente, passará longe do encontro.

Não bastassem as dificuldades políticas, a complexidade dos temas em discussão recomenda não alimentar ilusões sobre um suposto Bretton Woods 2, em prazo curto. A reunião de Bretton Woods, realizada numa estação de esqui chique de New Hampshire (EUA), em julho de 1944, durou três semanas e foi gestada nos dois anos anteriores. Bretton Woods foi o encontro que marcou a criação do FMI e do Banco Mundial e tem sido evocado pelos defensores de uma nova arquitetura financeira internacional, como o ministro brasileiro Guido Mantega.

Talvez o saldo da reunião do G-20 financeiro se resuma ao reconhecimento de que os países emergentes não escaparão da crise. Em São Paulo foi realizado o enterro da tese do “decoupling” (descolamento) e de que, no curto prazo, para evitar a catástrofe, o negócio é aplicar políticas francamente anticíclicas – até o FMI se rendeu aos fatos e celebrou o pacotão fiscal de US$ 600 bilhões anunciado pela China no fim de semana.

A síntese disso tudo é que a nova arquitetura do sistema vai ficar para depois. No curto prazo, o risco de uma recessão severa em 2009 e talvez em 2010 é muito maior do que se esperava antes – até porque os emergentes não vão segurar o rojão.

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