O homem que escreve

José Paulo Kupfer

29 de março de 2010 | 17h27

O jornalista Armando Nogueira, que morreu nesta segunda-feira, aos 83 anos, será lembrado como um dos criadores do “Jornal Nacional”, da TV Globo, o primeiro programa de televisão em rede nacional. Também será lembrado pelo suposto envolvimento, como diretor da Central Globo de Jornalismo, no “caso Proconsult”, esquema de fraude em apuração eleitoral, no pleito para governador do Rio, em 1982, com o objetivo de desviar votos e impedir a vitória de Leonel Brizola.

Para a minha geração de jornalistas, sobretudo os que, como eu, passaram pela então chamada crônica esportiva, Armando Nogueira foi antes de tudo uma referência. “Na grande área”, sua coluna diária, publicada no “Jornal do Brasil”, entre 1961 a 1973, ensinava, a cada dia, que o esporte – e entre eles, mais do que qualquer outro, o futebol, não é apenas um espetáculo emocionante de técnica e tática, mas, sim, palco de dramas, comédias e tragédias.  

Armando Nogueira, craque das letras, bordou frases e textos inesquecíveis. A esta altura, muitos deles já estão circulando pela internet, alguns na interpretação de grandes atores. São verdadeiras aulas de jornalismo.

Uma das minhas relíquias da profissão é um perfil de Didi, o gênio da bola e inventor da folha-seca, aquele chute que sobe e, de repente, cai dentro do gol, intitulado “O homem que passa”. Escrito por Armando, em 1961, para a revista “Senhor”, publicação que durou pouco, mas, em sua época, revolucionou o jornalismo, com textos e diagramação muito à frente de seu tempo, vale mais do que mil oficinas de texto.

Aqui está o “O homem que passa”, numa reprodução caseira das páginas da “Senhor”, por cuja precariedade peço desculpas. Foi o máximo que meus parcos conhecimentos informáticos permitiram conseguir.

Vai, com a certeza do prazer que provocará nos que gostam de futebol e apreciam a beleza do idioma – uma beleza que o jornalismo dá destaque, quando o trata com o devido e merecido amor, como foi sempre tratado por Armando Nogueira.

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