O maior risco é o Banco Central

José Paulo Kupfer

21 de janeiro de 2008 | 19h32

Cresceu o sentimento de que a economia americana vai encarar uma recessão este ano. Cresceu também a percepção de que a economia brasileira, embora em situação menos incômoda do que em crises anteriores, não escapará de algum remelexo e de uma redução no ritmo de crescimento. Há informações de que o próprio governo já começa a trabalhar com números de crescimento mais modestos para 2007. De 5% ou mais de crescimento, as novas expectativas na área econômica já teriam recuado para 4,5%.

Os mercados financeiros costumam antecipar – normalmente com exageros – as tendências da chamada economia real. No momento, a mensagem dos pregões internacionais é a de que o mundo vai desabar junto com uma inevitável e pesada recessão nos Estados Unidos. No Brasil, o “mood” dos mercados não é muito diferente. Está, enfim, se formando uma convicção de que o movimento mais provável da economia, em comparação com o ano anterior, é para baixo.

Ainda não se sabe o quanto para baixo vai ser o movimento. Isso depende do que acontecerá com a economia americana – e de como esses acontecimentos contaminarão as demais economias, maduras ou emergentes. Afinal, a reação negativa ao discurso de sexta-feira do presidente George Bush pode reverter, caso seu pacote de alívio para a economia americana, anunciado, mas não detalhado, seja convincente e, mais do que isso, rapidamente aprovado no Congresso. Mas na há dúvida de que para cima é que a coisa não vai.

Muito bem. Se é assim, fica meio difícil entender a idéia, já com ares de consenso entre os economistas-financistas tupiniquins, de que o Banco Central deve manter os juros básicos onde estão, se é que, pelas tantas, não deveria elevá-los. Afinal, se a economia já vai mesmo dar uma freada por conta própria, qual o sentido de empurrá-la ainda mais para baixo, reforçando ou mantendo as restrições monetárias? São tão estruturais assim as pressões inflacionárias? Nada indica que a resposta seja positiva.

Existe um outro aspecto que reforça o ponto de que a estratégia prevista do BC é estranha. É certo que, na reunião do fim do mês, o Federal Reserve vai cortar os juros. A dúvida é se Ben Bernanke se contentará com uma redução de 0,5 ponto ou se ousará um corte de 0,75 ponto. No resto do mundo, se a tendência da economia for de baixa, não haverá motivos para elevações nos juros.

Em qualquer das hipóteses, se o BC brasileiro fizer o que os economistas-financistas recomendam e esperam – no mínimo manter os juros onde estão até o fim do ano – o diferencial entre a taxa básica no Brasil e as internacionais de referência, vai aumentar. Faz sentido?

Entende-se que, com o aumento da percepção de que as perdas na economia americana serão inevitáveis, o apetite dos investidores por mercados, digamos, menos tradicionais, como o brasileiro, também arrefeça. Mas o Brasil está precisando, neste momento, de grana externa?

O famoso “fly to quality” do mercado financeiro está levando o dólar a se valorizar frente ao real. Ainda que o mercado financeiro americano, como se está observando, de “quality” tenha muito pouco, é inevitável que assim seja. De todo modo, a valorização do dólar tem se mostrado comedida e, diante do ambiente todo, no nível e no ritmo em que está ocorrendo, é até bem-vinda.

Tudo bem refletido, para a economia brasileira, o maior risco, no momento, vem da cabeça dos dirigentes do Banco Central. Eles já abortaram o movimento de decolagem da economia em 2005, depois que a economia cresceu 5,7% em 2004 e furou as projeções do controverso produto potencial.

Será que vão escorregar de novo?