O Masp não tem dinheiro. E os conselheiros do Masp?

José Paulo Kupfer

21 de dezembro de 2007 | 22h26

O furto do Picasso e do Portinari do Masp é um escândalo. Um escândalo e uma vergonha. Impossível esquecer de que não se trata de obras quaisquer, num museu qualquer, de um lugar qualquer. O lamentável ocorrido foi no Masp, o museu de arte mais importante da América Latina, localizado na principal avenida da maior e mais rica cidade brasileira. Em resumo, o furto atingiu o coração da elite brasileira.

Mais escandaloso e vergonhoso é saber, pela boca do presidente do Masp, o arquiteto-chique Júlio Neves, que não foi possível investir na segurança do museu “por falta de dinheiro”. Não é de hoje que o Masp, realmente, se debate com a falta recursos. E isso só aumenta o escândalo.

É inacreditável que falte dinheiro a uma instituição com uma direção e diversos conselhos em que faíscam nomes de grandes empresários e badalados executivos. A pergunta que precisa ser respondida é a seguinte: será que eles estão lá apenas para incrementar o relacionamento entre eles, trafegar influências e fazer negócios? Ou, tão somente para mamar isenções e subsídios públicos?

Não se desenvolveu, nas elites brasileiras, a cultura da doação, da transferência voluntária de parte do patrimônio amealhado (ou não inteiramente dilapidado, a partir do recebimento de heranças), comum em outras sociedades. Pior: não se desenvolveram mecanismos de recepção das doações. Aqui, tudo isso funciona de cabeça para baixo. O que há é a apropriação privada dos recursos públicos.

A epopéia em que se transformou o processo de doação da biblioteca Guita e José Mindlin para a Universidade de São Paulo é apenas a prova mais recente. Isso sem falar nas histórias e mais histórias de golpes aplicados por ONGs e organização sociais. Além disso, são raros, raríssimos, os casos de cidadãos de altas posses que resolvem contribuir com seu próprio dinheiro para a universidade pública em que receberam os ensinamentos que propiciaram sua prosperidade.

Pode não parecer à primeira vista, mas o triste episódio do furto no Masp tem tudo a ver com a resistência das elites brasileiras em distribuir a renda. Só isso explica o fato de que, diferentemente de outras sociedades, não tenhamos conseguido implantar um imposto inteligente sobre heranças e grandes fortunas, capaz de estimular contribuições suficientes para manter instituições culturais meritórias – como o Masp.

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