O mercado cai quando quer e sobe quando quer

José Paulo Kupfer

22 de janeiro de 2008 | 18h23

O Federal Reserve surpreendeu duplamente hoje. Fez uma rara reunião de emergência, fora do calendário previamente divulgado, e cortou os juros básicos, nos Estados Unidos, em parrudo 0,75 ponto percentual. Hoje o mercado se animou. E amanhã? E depois de amanhã?

Que apareça quem tem uma resposta certa e não apenas uma aposta. Não dá para saber, por uma razão muito simples: o mercado financeiro – e não é de hoje – descolou da economia real. Como um mosquito da dengue globalizado, ele pode contaminar os outros, mas ele mesmo não pega a doença. Vive seu ciclo, independentemente das epidemias à sua volta.

Parece, pelo movimento de hoje nos pregões mundo afora, que o mercado achou que a providência do Fed fará diferença – para melhor. Mas, se, pensando bem, amanhã o mercado acabar concluindo que, ao degolar os juros, que já estavam baixos, e ainda mais na correria, sem esperar nem dez dias para a reunião oficial, o Fed está passando a mensagem de que a coisa está (ou vai ficar) muito pior do que parece – e ainda não bateu no fundo do poço?

A moral dessa história, desculpem a singeleza do argumento, foi resumida por um dos mais experientes jornalistas brasileiros de economia, a editora de economia do Estadão, Cida Damasco. Comentando a quadra atual com o autor deste blog, valendo-se de sua finíssima e reconhecida capacidade de análise, ela matou a charada: principalmente nos tempos atuais, o mercado cai quando quer cair e sobe quando quer subir. No momento, envolto em bolhas e inflado por um longo ciclo de liquidez farta, o mercado não se cansa de dar indicações de que quer cair.

É isso. Quem ficar – ou se vir – no meio do tiroteio que se acautele com as balas perdidas.