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E-Investidor: Tesouro Direto atrai mais jovens e bate recorde de captação

O mercado quer acreditar no Plano Geithner

José Paulo Kupfer

25 de março de 2009 | 12h24

Meu jovem e entusiasmado interlocutor, o jornalista Leandro Modé, do Estadão, está direto na cobertura do plano do governo Obama para deglutir, às custas de um himalaia de dólares, os ativos tóxicos dos bancos.

Por isso, fiquei enchendo a paciência dele para me explicar não só os detalhes, mas a lógica da coisa. Mas o Leandro é que deve ter ficado cheio comigo e cortou o papo: “eu te escrevo um ponto a ponto, ok?”.

 

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Eu acho que o Prêmio Nobel Paul Krugman tem razão e o plano continua sendo uma tentativa de dar a volta ao mundo para não sair do mesmo e incômodo lugar: o da inevitável estatização, ainda que temporária, do sistema bancário, justamente na terra-mãe do capitalismo contemporâneo. Por isso, a jogada do momento é arriscada. Não é por nada que o pescoço do baixinho Geithner, nem três meses depois de nomeado, está valendo bem menos do que antes de assumir o Tesouro.

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Aí vai, então, o resumo do Leandro Modé para as dúvidas que ainda não foram dirimidas sobre o plano do secretário do Tesouro, Timothy Geithner.

 

O mercado quer acreditar no Plano Geithner

Embora ainda careça de mais e mais esclarecedores detalhes, o programa que o presidente Barack Obama lançou segunda-feira para salvar o sistema bancário americano guarda uma diferença fundamental em relação aos planos anteriores: parece contar com a boa vontade do mercado – o que não é pouco neste caso.

Além da euforia dos investidores na segunda-feira, o desempenho das bolsas ontem foi mais um indício de que, desta vez, o resultado pode mesmo ser diferente. Os principais índices de ações mundo afora fecharam o dia no vermelho, mas foram quedas leves, típicas de um pregão de realização de lucros. Se os questionamentos levantados por vários especialistas tivessem sido levados a sério, as baixas certamente seriam mais expressivas. E hoje, confirmando essa impressão, as bolsas voltaram a se animar.

É claro que ainda seria imprudente soltar fogos. Mas não custa lembrar que, em outras ocasiões, os investidores castigaram sem dó – e logo de saída – as ideias do secretário do Tesouro de Obama, Timothy Geithner, mais ou menos como já tinha castigado o seu antecessor, Henry Paulson.
 
Dito isso, vamos às dúvidas que permanecem sem resposta:

1) Os bancos vão mesmo querer leiloar os ativos podres que hoje entopem seus balanços se, afinal de contas, têm o apoio irrestrito do próprio governo, que já deixou claro que não permitirá que quebrem?

Digamos que uma instituição leiloe uma carteira de títulos considerados podres e receba propostas com deságios gigantescos. Outras se atreveriam a seguir o mesmo caminho ou iriam preferir manter os tais bônus “encarteirados”, apostando em que, uma hora ou outra, o Estado apareceria com uma solução nova?
 
2) A equipe de Obama parte do pressuposto de que o problema central é de confiança, mas é inegável que o calote tem crescido a taxas exponenciais, em consequência da própria crise econômica. Portanto, restaurar a confiança será suficiente para tirar os bancos do buraco?

O governo pode até, em um primeiro momento, convencer os investidores a aplicar nos fundos de títulos podres previstos no plano. Mas o que acontecerá se o mercado se der conta de que o tal título realmente não vale nada?

3) Detalhes importantes ainda são desconhecidos. Entre eles:

Quando serão constituídos os tais fundos? Que taxa de juros será cobrada pela Corporação Federal de Seguro de Depósito (FDIC) para garantir os fundos criados pelos ativos tóxicos? Por qual período vai funcionar essa garantia?

4) Como tem alertado o prêmio Nobel Paul Krugman, o que vai acontecer politicamente se este plano, como os anteriores, falhar? Terá Obama apoio no Congresso (e, por que não, popular) para uma nova tentativa?

Como o próprio Obama disse, os resultados só vão ser conhecidos nos próximos meses. Parece óbvio afirmar isso, mas, até lá, a única forma de medir a disposição dos investidores em relação ao plano é por meio do vaivém das cotações dos ativos financeiros. Bolsas seguidamente no vermelho indicarão mudança de humor – e mais demora na recuperação da crise.

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