Olho gordo no crédito consignado

José Paulo Kupfer

26 de março de 2010 | 18h13

Está em curso uma briga de foice pelo crédito consignado. A guerra, surda até a reportagem do colega Leandro Modé, esta semana, aqui no vizinho Estadão impresso, já rende mais de uma dezena de liminares na Justiça contra uma agressiva política do Banco do Brasil pela exclusividade da modalidade de crédito. À frente da briga judicial está a associação que representa os pequenos bancos, mas os grandes também estão na parada. Uma chuva de liminares é esperada para breve

O que os bancos reclamam do BB é a exclusividade que a instituição tem negociado com Estados e municípios na concessão de créditos consignados aos servidores públicos. Como os bancos pouco se interessam em firmar convênios com o setor privado – as folhas de pagamento são pulverizadas e os funcionários, menos estáveis –, a briga é para acertar parcerias com Estados e municípios.

O que os bancos querem é isso mesmo que você está pensando: uma parte que seja nessa boquinha. Para quem empresta, o consignado é, de fato, um negócio da China – fácil, pouquíssimo arriscado e altamente lucrativo. Quem não quer?

Os bancos alegam que o BB, com seu poder de fogo, impede a competição. Eles têm razão. O detalhe é que, no caso do consignado, competição é o que menos está em jogo. O que vale é a capacidade de convencer os altos escalões de Estados e municípios a firmarem convênios de concessão de crédito consignado com o banco “x” ou “y”. 

Modalidade de financiamento que mais cresce no mercado brasileiro, o crédito consignado já responde por mais de 60% do volume de crédito pessoal e quase 25% de todo o crédito concedido a pessoas físicas. Em fevereiro, o estoque total de crédito consignado passava de R$ 110 bilhões, dos quais empréstimos a servidores públicos representavam 85% e o restante era praticamente todo destinado a aposentados do INSS, das caixas de pecúlio estaduais e municipais.

O sucesso do consignado não é difícil de explicar. Por conta da inadimplência quase zero, a modalidade sai mais em conta para os tomadores – ainda que eles tenham de empenhar a própria remuneração em garantia, o que pode levar a casos, por exemplo, em que, entre comprar um remédio e pagar o empréstimo, o financiado não tenha como escolher a primeira opção.

O problema é que mesmo esse custo “mais barato” é escandalosamente caro. Um consignado custa, em média, 27% ao ano contra quase 60% ao ano nas demais modalidades para pessoa física. Parece uma beleza, mas não é. Os bancos não pagam mais de 10% ao ano pelo dinheiro que emprestam e, assim, considerada a inadimplência quase nula, ganham quase três vezes em cima do tomador do empréstimo. Um negócio que rende 200% ao ano é mesmo para brigar de socos e pontapés.

É de se perguntar por que os bancos conseguem cobrar menos de compradores de carros novos do que do trabalhador ou do aposentado tomador do consignado. A primeira resposta possível é que quem negocia os convênios do crédito consignado está entregando o “ouro” às instituições financeiras, sem impor limites adequados e decentes a elas. Não é por coincidência que, entre um convênio de crédito consignado e outro, pipocam suspeitas de corrupção.

Os bancos – inclusive o BB, que, em todo caso, deveria dar melhor exemplo – estão na deles. O fato de se engalfinharem pelo consignado, desmoralizando a própria tese de que o spread bancário é absurdo por causa, principalmente, do alto risco da inadimplência, só confirma que, normalmente, no mundo financeiro, o que fala mais alto não é exatamente a coerência e sim a ganância.

Mas quem lhes entrega, sem mais nem menos, uma bem fornida vaca leiteira de lucros deveria ter de se explicar.

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