Oportunidade na crise

José Paulo Kupfer

11 de agosto de 2011 | 17h00

Muito boa a entrevista do ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, aos colegas Raquel Landim, Fabio Alves e Ricardo Grinbaum, no Estadão impresso desta quinta-feira. É leitura altamente recomendável para quem quer recolher subsídios para refletir sobre os desdobramentos possíveis da crise atual.

Meirelles considera as diferenças desta crise para a de 2008 (na verdade, a crise de hoje é uma espécie de outro lado da mesma moeda da crise de 2008) e, a partir delas, estabelece uma linha de eventual contágio da economia brasileira. Ele acha que o canal para isso é o setor externo, pela via de uma contração nas receitas de exportação.

O argumento de Meirelles se baseia na ideia bem disseminada de que a crise atual levará a um esfriamento da economia global, puxada por Estados Unidos e Europa. A menor demanda daí decorrente se combinaria com um período de maior aversão a riscos para impor freios às altas nos preços das commodities e, ao mesmo tempo, dificultar as vendas externas de manufaturados.

Uma queda consistente e prolongada nas cotações das commodities internacionais, que hoje respondem por três quartos das receitas de exportação brasileiras, ajudaria no combate à inflação e transportaria os riscos para o lado externo da economia. A possível folga nas pressões inflacionárias permitiria extrair da crise a oportunidade de reduzir os juros e, assim, ao estreitar a distância dos juros internacionais, mitigar a valorização do real.

Os desdobramentos  práticos desse diagnóstico não dão margem a dúvidas. O Brasil deveria, desta vez, compensar possíveis efeitos negativos da crise global no nível de atividades com uma ação expansiuonista de política monetária, mantendo contido o lado fiscal. Esta também é a visão do próprio governo e de economistas de prestígio, como o também ex-BC Persio Arida.

 

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