Os atores da crise

José Paulo Kupfer

14 Outubro 2008 | 18h40

Conversei ontem com o Leandro Modé sobre os protagonistas da crise internacional. Interessante notar que são todos governantes. Os comandantes do setor privado sumiram do mapa.

Chama a atenção o que ocorre com a reputação de Alan Greenspan. O “Maestro” do capitalismo nas últimas duas décadas, transformou-se num dos maiores, se não o maior, vilão da crise.

Aqui, a avaliação do Leandro. Qual é a de vocês?

 

Já há quem diga que a crise atual estará nos livros de história. Evidentemente, só o tempo vai mostrar se tais avaliações são ou não exageradas. Se quem diz isso estiver certo, alguns personagens ilustrarão as páginas dos livros. Aqui vai uma breve avaliação de alguns desses protagonistas.
 
George W. Bush: o ex-governador do Texas, atualmente com 62 anos, deve passar à história como um dos piores presidentes dos Estados Unidos – senão o pior. Além das guerras sem fim no Iraque e no Afeganistão, ele adotou uma política econômica expansionista, que contribuiu para a formação da bolha imobiliária, cujo estouro, hoje se sabe, engolfou toda a economia mundial. Durante a crise, teve um papel quase irrelevante. Foi à TV quase diariamente para tentar tranqüilizar a população, mas seu insucesso na empreitada revelou uma figura inteiramente desacreditada.
 
Henry ‘Hank’ Paulson: o secretário do Tesouro dos EUA deve sair da crise maior do que entrou. Embora seu plano de US$ 700 bilhões para salvar o sistema financeiro seja cheio de falhas, ao menos teve a coragem e a iniciativa de propor algo que, no fim das contas, ajudou a acalmar a situação. Antes mesmo de os europeus sonharem em resgatar seus bancos, já alertava que um plano semelhante ao americano seria necessário na região. Mostrou que estava certo.
 
Ben Bernanke: o atual presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) parece ter-se resignado em ser um escudeiro de Paulson durante a crise. Embora seja um dos maiores acadêmicos especialistas na crise dos anos 30, titubeou para implementar medidas que acalmassem os mercados financeiros. No início da crise, ficou preso à idéia de risco moral e, por isso, hesitou em baixar a taxa básica de juros. Foi obrigado, então, a promover cortes emergenciais. Não que estivesse totalmente errado, mas, no meio do tiroteio, risco moral parece ser o menor dos problemas.
 
Alan Greenspan: parece não haver dúvidas sobre o encolhimento do ‘maestro’ durante e, provavelmente, depois da crise. Se não bastasse o fato de ter mantido a taxa de juros baixíssima durante longo período, o que está na origem da bolha imobiliária, foi leniente com a regulação/fiscalização do sistema bancário. Sua fé cega na liberdade dos mercados mostrou-se equivocada. A conta da farra, só na Europa, deve superar os US$ 2 trilhões. Há que se dizer, a seu favor, que atuou duramente contra a bolha das ações de tecnologia – comportamento que nem de longe repetiu durante a formação da bolha imobiliária.
 
Gordon Brown: se tivesse mais carisma, o primeiro-ministro britânico poderia sair da crise como um herói. Foi quem primeiro entendeu a gravidade da situação e não hesitou em adotar medidas radicais para resolvê-la. Poucos se lembram, mas foi esculhambado quando decidiu nacionalizar (estatizar) o banco hipotecário Northern Rock, em fevereiro. Saiu na frente de seus pares europeus, ao anunciar um plano para resgatar o sistema financeiro, que incluía a compra de participação em bancos privados.
 
Nicolas Sarkozy: o presidente francês também entendeu logo o tamanho do problema. Chegou a convocar uma reunião em Paris, no dia 4 de outubro, para tentar convencer outros países da região a pôr em marcha, coletivamente, um plano semelhante ao dos EUA. Não conseguiu. Os mercados reagiram com quedas brutais das bolsas de valores na semana seguinte. O Índice Dow Jones, por exemplo, que é o mais tradicional da Bolsa de Nova York, perdeu 18% entre 6 e 10 de outubro. Foi a pior queda semanal dos 112 anos de história do indicador.
 
Angela Merkel: a chanceler alemã ficou para trás em relação aos colegas. Ficou presa aos aspectos morais do salvamento dos bancos e recusou, em um primeiro momento, um plano coordenado. Foi obrigada a voltar atrás. A Alemanha acabou adotando um pacote de salvamento do sistema que pode custar até 500 bilhões de euros.